WALY SALOMÃO

Foto: Xando Pereira / Agência A TARDE

Foto: Xando Pereira / Agência A TARDE

Saudade de Waly. Como mestre sutil, um dia ele me deu a tarefa: para introduzir-me num conhecimento mais profundo sobre a Cidade da Bahia, imprescindível a releitura da obra urbana de Jorge Amado: Jubiabá (provocou a migração para Salvador de Carybé e Pierre Verger), Dona Flor e seus dois maridos, Mar Morto, Tenda dos Milagres, Capitães da Areia, Bahia de Todos os Santos, Os Velhos Marinheiros (duas histórias do cais da Bahia, uma delas A morte e a morte de Quincas Berro Dágua).

Poema de Waly Salomão dedicado à Cidade da Bahia:

BAHIA TURVA

BAHIA QUE TAMBÉM RIMA
COM ALERGIA/ELEGIA
Maré cheia de fofocas por todos os lados,
do lado da corte
e do lado do cortiço, do bairro burguês
e fofoca da maloca
do mocó do biongo da palafita de alagados.
Que atroz ironia: Rio das Tripas, cloaca geral
sociedade anônima
de soterópolis cap, desemboca no mar
por entre o Jardim dos Namorados
e o Jardim de Alah.
Um conselho de eunucos chilreia cheio
de salamaleques sob o leque das palmeiras brabas.
Bahia não só de luzes, Bahia de todas as fezes.
Bahia de todas as trevas
Bahia de vistas turvas e língua de trapo.
Bahia de tantas travas e cabrestos
e tramas e tramóias e taramelas.
O mito reluzente da cidade plantada
na colina por Tomé de Souza
feito enxurro que escorrega encosta abaixo
para as planícies, os vales,
o manguesal alagadiço palafitado
taliqual Ganvier-Benin, os baixos,
o apicum geral.
O apicum.
Até um gerúndio do verbo asnar tornado vereador:
ASNANDO.
Obra-prima do bate-boca, do disse-me disse,
“A BRIGA DAS FATEIRAS”
do velho célebre Rabelais do recôncavo
Cuíca de Santo Amaro, o tal.
Um paraíso podrido de mondrongos horrorosos
pintado por um Caravaggio de 15ª categoria,
um Caravaggio acanalhado.
Ilustração adequada: a assim chamada
fase negra de Goya.
Viver na Bahia não é só comer acarajé, não.
Nem xinxin de galinha, comida sem igual.
Viver na Bahia é mastigar um sanduíche
misto de entropia e maledicência
Sandice absoluta pois Bahia também rima
com positiva alegria
que reina no Bar Buteco do Farias
situado no fim de linha do Pasolini
bairro da Fazenda Garcia
onde sempre que podia lá eu ia
e eu ia
e eu ia
e eu lá ia
isto é sempre que podia.
Oh! que brava alegria eu tenho quando
Oh! que brava alegria eu tenho
quando there’s no place
like Budião, Amaralina et caterva.
Bela doida doida doida cidade híbrida
Ora me recorda COTONOU-BENIN
Ora me lembra ALEXANDRIA
de Constantinos Cavafis
Quem quiser que invente outra cidade
pois se eu quiser invento outra.
E eu quero.
Uma que seja agulha de luz atlântica.

(ARMARINHO DE MIUDEZAS, Fundação Casa de Jorge Amado, 1993)


WALY SALOMÃO – por Caetano Veloso

meu grande amigo
desconfiado e estridente
eu sempre tive comigo
que eras na verdade
delicado e inocente

findaste o teu desenho
e a tua marca sobre a terra resplandece
resplandece nítida e real
entre livros e os tambores do vigário geral
e o brilho não é pequeno

eu sigo aqui e sempre em frente
deixando minha errática marca de serpente
sem asas e sem veneno
sem plumas e sem raiva
suficiente

Jary Cardoso Jary Byko 3-4

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