CIDADE DA BAHIA: O FIM DA PICADA

UMA QUESTÃO URBANA COMPLICADA

ANTONIO RISÉRIO Antonio Riserio

Acabo de ler Confiança e Medo na Cidade, o recente livrinho do sociólogo polonês Zygmunt Bauman publicado no Brasil. Gosto bastante das coisas de Bauman. Ele certamente não é um craque do primeiríssimo time da teoria social. Não é nenhum Max Weber. Fica mais ou menos no plano de um Anthony Giddens, guru de Tony Blair. E, como Giddens, sempre tem coisas muito interessantes a dizer.

É claro que não dá para tentar resumir, neste espaço, Confiança e Medo na Cidade. Destaco apenas dois tópicos. Primeiro, o tema da onipresença do medo no espaço urbano contemporâneo. Segundo, a complexidade e mesmo a impossibilidade de responder, no plano específico de uma cidade, a toda uma série de problemas criados fora dela, em escala global.

O tema da onipresença do medo (que levou um estudioso brasileiro, Marcelo Lopes de Souza, a cunhar o neologismo “fobópole”, cidade do medo) praticamente se banalizou entre nós – mas em termos práticos e não reflexivos. Porque sempre, historicamente, existiu violência nas cidades. Mas não a atmosfera absolutamente carregada de medo em que vivemos. E que aparece como uma nota distintiva do viver urbano entre as últimas décadas do século XX e estes primeiros anos do século XXI.

O medo afetou a conduta diária de todos. Criou uma nova espécie de estresse social, sob o signo do risco e do perigo. Que, por sua vez, acabou gerando o que se pode definir como uma “cultura do medo”. Cultura que se manifesta, em termos mais gerais, no uso seletivo que fazemos do espaço urbano (é cada vez menor o número de lugares onde as pessoas se sentem seguras), restringindo a liberdade de locomoção.

Mas que se expressa, também, na autorreclusão noturna dos moradores das cidades. E na chamada “arquitetura do medo”. Na parafernália dos equipamentos de segurança (minicâmeras, alarmes, etc.). Na colocação de grades em portas e janelas das casas. No uso de cercas elétricas para fins de defesa residencial. E assim por diante.

O que temos, hoje, são casas entrincheiradas em cidades militarizadas. Com forças policiais logicamente armadas. Com quadrilhas armadas de bandidos avulsos ou do chamado crime organizado. Com grupos privados de segurança igualmente armados. Em suma: o que aconteceu, nesses últimos tempos, pode ser definido em termos de militarização da questão urbana.

Mas, até aqui, apenas toquei em um tema que também é caro a Bauman, como a outros sociólogos e estudiosos do fenômeno urbano. Chegando ao segundo ponto “o da resposta local a problemas globais” é que recorro direto ao autor de O Mal-Estar na Modernidade. E ele formula com muita clareza a questão. Por exemplo:

“As cidades, nas quais vive atualmente mais da metade do gênero humano, são de certa maneira os depósitos onde se descarregam os problemas criados e não resolvidos no espaço global. São depósitos sob muitos aspectos. Existe, por exemplo, o fenômeno global da poluição do ar e da água, e a administração municipal de qualquer cidade deve suportar suas consequências, deve lutar apenas com os recursos locais para limpar as águas, purificar o ar, conter as marés”.

Zygmunt Bauman dá outros exemplos. Como o dos ambulatórios públicos sem remédios, por conta da alta dos preços de determinados fármacos, decorrente de conflitos na grande indústria farmacêutica ou da imposição de “direitos de propriedade intelectual”. Sempre é a cidade quem arca com as consequências, sem ter como enfrentá-las e resolvê-las. “Tudo recai sobre a população local, sobre a cidade, sobre o bairro”, escreve Bauman.

E é claro que a nossa querida e atualmente destroçada cidade do Salvador também está no meio da chuva. Apesar das muitas crenças mágicas de seus administradores e habitantes, não tem como fugir ao figurino. Problemas globais nos atingem em cheio. E, como as demais cidades do mundo, não dispomos de instrumentos suficientemente poderosos para combatê-los.

O que é ainda mais angustiante e desgraçado, no caso de Salvador, não é somente que não tenhamos como dar respostas eficazes e imediatas a problemas globais. É que, além disso, temos hoje uma administração municipal que é simplesmente incapaz de dar respostas a problemas criados aqui mesmo, localmente. E isto, com certeza, é o fim da picada.

(Transcrito da página de Opinião do jornal A Tarde, de Salvador)

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