BAIANICES – ZÉDEJESUSBARRÊTO

ECOS DA TAL BAIANIDADE

A alma urbana, tão recôncava, tem impregnadas resinas do sertão. Flor de mandacaru, espinho de macambira, folha de juá, sombra de umbuzeiro. Gosto de licuri catado ao sol do pasto, depois de comido, cozido no bucho e cagado pelas cabras e ovelhas soltas. Cheiro de estrume fresco de gado no curral ao amanhecer, criança trepada na porteira de olho nas tetas arremetidas pelos bezerrinhos famintos, o copo de  alumínio na mão com duas pedras de sal dentro, à espera do leite morno tirado na hora, o bigodão de espuma branca na cara feliz de todo dia.

Na lembrança, hoje ainda, as cantorias em prece das raspadeiras de mandioca nas casas-de-farinha. Na alma, dolente, o som lamentoso e cortante, tão perto e distante,  esmigalhado pelos fueiros dos carros-de-boi que rasgavam trilhas barrentas da infância. O canto das cauãs pedindo chuva e chamando a noite, e dos galos acordando o dia. O despertar com os passarinhos, o ‘ti-ti-ti’ em voz alta de vovô no terreiro, a cuia cheia de milho, dando de comer às galinhas em festa a seu redor.

Da vida suburbana, a poesia dos saveiros soberanos e mansos, com seus mastros e velas imensos, abarrotados de cerâmica, material de construção e frutas ancorando em hora de maré cheia nos atracadouros de mangue à beira da linha do trem. Ecoam ainda o badalar dos sinos da matriz dos Mares chamando para a missa das sete; o apito e as ofegâncias rítmicas das ‘Maria Fumaça’ arrastando a fogo e lenha o comboio nos trilhos.

A sonoridade da alma urbana traz no peito os chiados dos discos de 78 rotações sob as agulhas descartáveis. Tem ecos das bocas de alto-falantes no mais alto dos postes ou das mangueiras da rua. Antes, bem antes do violão de João, a sanfona de Luis. Antes do canto grave de Bethânia, os trinados longos de Ângela Maria. Antes da guitarra e dos Beatles, os batucajés da noite e as batucadas de rua. Antes da tropicália Alegria Alegria, muito bolero do Trio Irakytan, dois pra lá e dois pra cá.

Tudo isso ruminado  e ruminando anos a fio, como as vacas ruminam o alimento, horas seguidas, remastigando em baba, sob a sombra  protegidas do sol ardido da caatinga.

Baiano não come só marisco e acarajé. Come também farinha, bode assado e cuscuz de milho com manteiga. Tem carnaval e São João, axé e xaxado,  festa no mar e romaria. O negro é belo, mas o caboclo existe. A capital está apinhada deles, vindos dos sete cantos desse interior tão imenso quanto desconsiderado. Malês, Canudos, cangaço, coronéis do cacau e da chapada, nativos sem identidade, beatas, crentes… Isso tudo é Bahia. Não se pode compreender aqui sem perceber acolá.

Mas, mudando de acorde sem sair do tom… Ouço o novo cedê de Caetano e fico triste.  Esse Caetano já não me diz nada. Envelheci de vez ou os altos decibéis da tal modernidade estão me ensurdecendo. Acuda-me, Tuzé de Abreu!

(Transcrito da página de Opinião do jornal A Tarde de Salvador)

zédejesusbarrêto FotoBarreto

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3 Respostas to “BAIANICES – ZÉDEJESUSBARRÊTO”

  1. iracema Says:

    ECOS DA TAL BAIANIDADE é mais que um artigo. Tem a precisão de uma belíssima poesia. Viva Barretinho! Viva Tuzé!

  2. mga Says:

    Esse eco de baianidade definitivamente é vc, zéde, e lembrando Rubem Braga, a Bahia é que se inspira em tu. Adorei o retratinho 3X4!!!!!!!!!!!!!!! deu pra matar saudades. Legal o blog, parabéns a todos.
    besos!!!!!!!!!!

  3. mga Says:

    qto ao novo som de cae, o Nelson Motta adorouuuuuuuuuuuuuuuu!!!! fez altos elogios e disse que considera este CD o seu melhor trabalho desde tempos idos. Gosto é assim mesmo, cada um tem o seu, né? eu vou ouvir, fiquei curiosa.

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