AVE BAHIA! – por CLÉO MARTINS

CARURU NO MOSTEIRO

O cheiro bom chiando no tacho e as vozes das baianas de acarajé fisgaram-me de volta ao presente.

Distraída no trajeto estacionamento/escritório refletia no testemunho silencioso da igreja do mosteiro beneditino do século XVI. O primaz. Tantas brisas e tempestades, tendências e costumes esquecidos; tantos mortos, feridos e muito pelo contrário… ”That’s life…

Pus os pés na faixa de segurança como se estivesse mais adiante, onde preciso de passaporte. Freei-me a tempo, indignada com a empáfia, bolodório e falta de educação nestas bandas do Equador. Para as autoridades do trânsito patropi dedico inteiramente o velho dizer de Miguel Reale – o pai: filósofo do Direito das Arcadas do Largo de São Francisco, da USP, falecido há poucos anos:

– Mais vale uma vaia do que um bocejo.

As profissionais do dendê trabalhavam e conversavam.

Ah pois, Carmélia, já viu que tentação… Deixe o prego que o martelo chama, Rosenice… Mas lhe digo uma coisa. Perante a Jésuis e minha mãe Oxum; sei de nada não, minha véa… Isso deve ser ejó de gente desavisada.

Detive-me no tabuleiro. Tentei recordar-me de quando ouvira falar assim pela primeira vez…

Detive-me para comprar queijada de amendoim das mãos das “freguesas”: outra maneira de dizer necessitada de tradução em outras bandas brasileiras. As “freguesas” mudaram o assunto. “Tem roupa na corda” – a saudação de chegada de ouvidos curiosos. Passaram a comentar a triste morte da jovem mãe e de sua filha meninota nas chuvas inaugurais de maio: vidas promissoras perderam o jogo na chave de braço do fado versus incompetência. Ambas engolidas pelo bueiro da mediocridade. Poderia ser outra a solução. O Criador dá o dom. Cabe à criatura trabalhá-lo. Recordo-me da conversa do teólogo evangélico Deocleciano Ferreira, pai do maestro Dilton César: “Apenas a música é dom de Deus. A voz humana não. Pode ser trabalhada e isso depende de esforço e opção de cada um”…

As baianas de saia, bata, pano-da-costa e contas de orixás têm ponto de venda pertinho do mosteiro onde eu e alguns amigos cantamos no coral de 45 anos. Entre eles, a Vilma Nascimento, cantora mineiríssima prima do Milton.

Todo ano acontece o tradicional caruru preparado e oferecido pelos coralistas. No mosteiro. Com tudo o que há de bom e melhor e um bocadinho mais: caruru, efó, acaçás, vatapá, feijão fradinho, xinxim, acarajés, abarás, farofa de azeite..

Para os nascidos na Bahia isso talvez não cause lá estas grandes emoções… Mas para nós, sotero-paulistanos, é de enternecer e dar água na boca. Coisa profética que só na Bahia tem: a terra de santos católicos e orixás do candomblé em perfeita convivência e braços dados – cada um na sua… O amor fala mais do que dogmatismos capengas. O coração é livre para crer no que quiser e ser feliz: dever de todos nós. Ave Bahia cheia de graça, minha gente!

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