GENTE DA BAHIA – MÃE VALNIZIA DE AIYRÁ

MãeVal3
Depois de escrever mais uma dedicatória, Mãe Valnizia posa para a foto de Vilma Nascimento

 

Histórias de fé e de resistência

 

CLEIDIANA RAMOS*

cramos@grupoatarde.com.br

“O sagrado manda recados numa linguagem que cada um entende, pois o sagrado é um só. A gente é que fica dando nomes diferentes a ele”. A frase, que nunca esqueci, me foi dita pela yalorixá Valnizia de Aiyrá, que, ao completar 50 anos, lançou, sábado (9/5/09), o livro Resistência e fé, no Solar do Ferrão.

Eu a conheci quando fui ao Terreiro do Cobre para um debate sobre mídia e religião. Fiquei impressionada com a tranquilidade que transmitia ao conversar ou só olhar para as pessoas.

Quase um ano depois, encontrei-a novamente e conversamos sobre opções religiosas. Suas colocações – vindas de uma sacerdotisa graduada, claro, mas tão jovem para uma sabedoria tão profunda – aumentaram meu respeito por ela.

Quis o destino, com as voltas que o candomblé – religião a que aderi – costuma dar, que o Terreiro do Cobre se tornasse a minha família espiritual, com Mãe Valnizia à frente. Foi quando conheci outra característica sua: o dinamismo. Na efervescência religiosa, cultural e social que é o seu terreiro, Mãe Valnizia ou Mãe Val, como alguns a chamam, não para um minuto.

Ali, fui vendo a natureza humana tão próxima da divindade à qual ela é consagrada: Aiyrá, membro da família de Xangô, senhor dos trovões e do dinamismo, mas que veste o branco tão próximo da tranquilidade de Oxalá. E assim é ela: dinâmica e tranquila, alternando-se de acordo com a necessidade.

E agora, através do seu livro, que sai em edição independente, com tiragem de 500 exemplares, Mãe Valnizia torna acessível, a um público maior, o conhecimento dessas suas características, de uma forma completamente transparente.

Lá estão, claro, as nuances de sacerdotisa, mas também de mulher, com dúvidas e questionamentos que são comuns a tantas de nós. O detalhe é a amostra de como a sua fé a fez superar obstáculos, inclusive perda de familiares queridos.

Com o livro, ela vem se juntar a duas outras sacerdotisas baianas que já usaram a escrita para mostrar seu pensamento sobre diversas questões: Mãe Stella de Oxóssi (yalorixá do Axé Opô Afonjá) e Mãe Hilda Jitolu (mãe espiritual do Ilê Aiyê). Dona de uma escrita fluente e muitas vezes corajosa, por não omitir as dúvidas diante dos caminhos e escolhas que foram se impondo, Mãe Valnizia presta um serviço valioso à sua religião ao mostrar que ela é, como várias outras, um caminho de descobertas, de busca de iluminação e de crescimento pessoal, que se reverte em benefício também para quem está no seu entorno, aspectos do candomblé que não costumam ganhar tanto destaque.

A resistência e fé do título vão sendo construídas ao longo da trajetória da autora. Iniciada no candomblé aos 16 anos, na Casa Branca do Engenho Velho (considerado o mais antigo terreiro do Brasil da nação ketu), Mãe Valnizia descobriu aos poucos que seria dela a incumbência de continuar a liderança iniciada por sua tataravó, Margarida de Xangô, uma africana vinda da região onde hoje está a Nigéria, que fundou o Cobre ainda na Barroquinha no século XIX, mais tarde transferido para o Engenho Velho da Federação onde está até hoje.

Aos poucos ela foi descobrindo que a sua missão era ainda maior: liderar a casa fundada por suas ancestrais. A yalorixá, então, assumiu, além da retomada religiosa da Casa, a luta pela sua reconstrução física. Além disso, iniciou uma sucessão de projetos sociais e educacionais, voltados principalmente para as crianças e jovens do Engenho Velho.

São essas histórias que permeiam seu relato. Talvez o melhor resumo para o que o livro conta seja um trecho da apresentação escrito por Liu de Oxalá, uma das filhas religiosas da sacerdotisa:

“Faço analogia desse livro ao barro na mão do oleiro – algumas partes o vento sopra e espalha, outras partes as águas tocam sutilmente modelando e remodelando formas e seres. Tudo de um jeito tão destemido, mas com ressalvas e o respeito pertinente que só a sabedoria sustentada pela força de Aiyrá pode explicar”.

* Cleidiana Ramos é jornalista, blogger do Mundo Afro

(Matéria publicada pelo Caderno 2 do jornal A Tarde, de Salvador, em 9 de maio de 2009)

Cleidiana Ramos, autora desta matéria e blogger do Mundo Afro, com Jary Cardoso, criador do blog Jeito Baiano, no lançamento do livro de Mãe Val.     Foto: Vilma Nascimento

Cleidiana Ramos, autora desta matéria e blogger do Mundo Afro, com Jary Cardoso, criador do blog Jeito Baiano, no lançamento do livro de Mãe Val. Foto: Vilma Nascimento

 

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4 Respostas to “GENTE DA BAHIA – MÃE VALNIZIA DE AIYRÁ”

  1. Marlon Marcos Says:

    Este texto de Cleidiana é uma preciosidade. Figura-se como uma crônica-conto redigida no formato do amor… E o nosso negro povo-de-santo! Sempre Cleidiana, agora filha da dinastia do Cobre. Axé!

  2. Emerson Pires Says:

    Tenho muito amor e respeito pelo povo do Terreiro do Cobre, pois, quando estive muito doente, encontrei socorro espiritual dele. Todos os dias, ao levantar, agradeço a Deus por este Terreiro existir…

  3. Arleth Marinho dos Santos Monteiro Says:

    Quis a vida e os Orixás que eu conhecesse Mãe Val em 1994 e hoje sou filha de santo do Terreiro do Cobre. Neste lugar de tanta energia e positividade, pude conhecer um pouco do que é religiodade africana, e Mãe Val de Ayrá é uma sacerdotisa que ajuda a aliviar muitas dores, principalmente as espirituais. Eu que o fale…

  4. Arleth Marinho dos Santos Monteiro Says:

    Cleidiana, minha irmã, é muito bom ter gente da comunicação com a alma e os olhares para os cantos e recantos desta nossa Bahia, principalmente quando se trata do povo de santo e suas lutas. Axé! Muita luz e que os orixás a protejam hoje e sempre!!!

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