CRÔNICA DE TUZÉ DE ABREU

Com o vento e a chuva a calçada ficou vazia na Praia de Jaguaribe. Foto: Marco Aurélio Martins / Ag. A Tarde Data: 03/05/2009

Vento e chuva na Praia de Jaguaribe / Foto: Marco Aurélio Martins / Ag. A Tarde 3/5/09

ÁGUAS DE MAIO EM SALVADOR

Caminhava como podia debaixo da chuva intensa. Já desistira de preocupar-se com as alpercatas nos pés, que andavam dentro d’água. Tinha ainda um restinho de preocupação com as calças, que puxava prá cima a todo instante. Não queria arregaçá-las convenientemente, porque significaria ficar algum tempo parado debaixo daquele toró. Caminhar apressado era melhor. Sem motivo aparente, ou talvez por ter visto as alpercatas entrando e saindo das poças d’água, quase como numa dança, lembrou de um casal de coroas como ele, dançando magnificamente o forró, com uma leveza extraordinária apesar de serem gordos. Dançavam com muito mais leveza que todos os outros casais, muitos deles adolescentes. Aquilo deveria ter sido filmado.

A água continuava a cair com abundância. A chuva em Salvador tem causado problemas desde o século da sua fundação, conforme lera em uma história da cidade, escrita no final do século XVI. Alguns prefeitos conseguiram resultados razoáveis, com trabalhos de contenção de encostas, melhor atividade da defesa civil, e outras medidas preventivas. Mas parece que prevalece o estigma de só fechar a porta depois que o ladrão entra.

Com a camisa totalmente colada ao corpo, lembrou da experiência triste que teve, por anos, tendo que ir, devido à sua profissão, a locais onde estavam ocorrendo deslizamentos e desabamentos com mortes. Tinha que trabalhar debaixo de chuva forte, em situação de risco pessoal. Isto aconteceu algumas vezes. Ficou particularmente gravada em sua memória certa madrugada quando, em companhia de um delegado de polícia, um oficial dos bombeiros e vários policiais e bombeiros, numa encosta no bairro da Liberdade onde ocorrera desabamento com mortes, e ainda havia risco de novos desabamentos e novas mortes, o delegado numa atitude inusitada que, porém, revelou-se sábia, mandou comprar algumas garrafas de cachaça e obrigou todos a beberem um pouco.

O Canela, por ter sua parte principal no alto de uma colina, não é um local onde ruas viram rios como em regiões de vale. Pensando isto, lembrou-se de fotos enviadas por uma amiga pela internet, onde várias ruas de vales viraram rios, e praças, também de vale, viraram lagos. Numa dessas fotos, havia um automóvel parcialmente submerso, com o vidro traseiro rebentado. Uma legenda dizia que aquilo fora feito pelo motorista, para sair e não ser levado no carro desgovernado pela enxurrada.

Logo, perto da árvore onde ouvira tantas vezes o sabiá, no início da ladeira, encosta da colina, o volume de água aumentou, exigindo mais cuidado e atenção onde pisar. Por ali, muitas pessoas pobres, algumas idosas, protegiam-se como podiam, por estarem esperando atendimento médico em clínicas vizinhas.

Foi impossível não lembrar o deputado que disse estar “lixando-se” para o povo.

(Tuzé de Abreu é músico, integrante da Orquestra Sinfônica da Universidade Federal da Bahia. E-mail: tuze@ufba.br)

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