MIJAR OU NÃO MIJAR NA RUA, EIS A QUESTÃO

castroalves

A TV Globo deu uma mijada nos baianos. Anunciou em rede nacional que “o hábito vergonhoso dos baianos” de urinar na rua é responsável pela corrosão das estruturas dos viadutos de Salvador. Essa pelo menos foi a chamada da reportagem, o apelo para ganhar a atenção do telespectador, anunciado por apresentadores do Bom Dia Brasil desta quinta-feira dia 16 de abril. Especialistas foram ouvidos e no decorrer da matéria percebe-se que a manchete foi um exagero, serviu para alimentar os tradicionais preconceitos contra os baianos. A vergonha para todos os brasileiros na verdade é o fato de a maior rede de comunicação do país ainda insistir em alimentar esses preconceitos.

“Os viadutos da capital baiana – diz a reportagem, segundo o site do Bom Dia Brasil –, alguns erguidos há mais de 40 anos, sofrem a ação do tempo. Chuva, poluição e salinidade, aliadas à falta de manutenção, garantem os especialistas, ameaçam a segurança de quem precisa deles. Não bastassem as condições ambientais e o desgaste pelo uso, o comportamento de parte da população também ajuda, segundo os técnicos, a comprometer a estrutura destas construções. Estamos falando de um hábito nada exemplar de muitos homens baianos. Basta um cantinho mais escondido e a rua vira banheiro. Segundo engenheiros, o ácido úrico despejado pela turma que não tem vergonha de se aliviar em público é corrosivo:

– A utilização da urina no concreto deteriora esse concreto. Existe uma reação (química). A umidade corrói – explica o vice-presidente do Crea da Bahia, Edgarde Cerqueira. (…)”

No final da reportagem, em vez de cobrar das autoridades tanto a manutenção eficiente dos viadutos quanto a implantação de sanitários públicos em número suficiente, o que se viu foi a Globo puxando o saco do prefeito e dando lição de moral aos baianos:

“(…) As obras de recuperação já começaram e outros 17 viadutos vão receber o mesmo tratamento, diz a prefeitura. Mas para muita gente, o ideal seria que as reformas viessem acompanhadas de uma mudança de hábito”.

Esses sudestinos que faturam produzindo maledicência sensacionalista e  desrespeitando  “baianos” e “paraíbas” não desistem de querer nos colonizar, para que fiquemos tão sem graça e sem sabor quanto eles. A esperança deles é chegar o dia em que não precisarão mais sentir inveja da gente.

Veja-se a questão sob um ângulo completamente diverso, a partir do episódio que vou narrar, tendo como protagonista o grande poeta pernambucano Ascenso Ferreira, nascido em 1895. O episódio, acontecido entre 1959 e 1960 – quando, portanto, o poeta tinha de 64 para 65 anos –, faz parte da crônica de vida dos então jovens integrantes da Geração Mapa, como a estrela maior, o crítico de cinema,  jornalista e futuro cineasta Glauber Rocha, mais o poeta e jornalista Florisvaldo Mattos, o poeta Fernando da Rocha Peres, o teatrólogo e cineasta Paulo Gil Soares, o artista plástico Calasans Neto, o jornalista João Carlos Teixeira Gomes, o Joca, entre outros.

Antes de fazer seu primeiro filme, Glauber Rocha resolveu conhecer melhor o Nordeste, cuja literatura tanto o fascinava. E nessas viagens uma das pessoas que o encantaram foi o poeta Ascenso Ferreira. De volta à Bahia, Glauber, em parceria com Joca, convidou Ascenso a conhecer Salvador. O poeta pernambucano, figura da primeira geração do modernismo brasileiro, com poemas célebres em antologia, passou um mês na Cidade da Bahia, entre idas e vindas pelos pontos de referência da cultura local, principalmente bares e restaurantes, em andanças em que se misturavam boemia e poesia. Ascenso sempre discorria sobre arte e literatura nas conversas de bar e jardim. Na véspera do seu retorno ao Recife, providenciou-se o encontro dele com jornalistas para uma entrevista coletiva e despedida de Salvador. Foi quando um dos jornalistas lhe perguntou:

– Depois de um mês de estada em Salvador, o que mais lhe impressionou na cidade?

O poeta respondeu com precisão:

– A liberdade de mijar!

Porque ele justamente não sentira nenhum pudor quando precisou se aliviar, não titubeando de escolher a primeira árvore ou a primeira parede que encontrasse. E ninguém o perturbava. . .

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18 Respostas to “MIJAR OU NÃO MIJAR NA RUA, EIS A QUESTÃO”

  1. giulenoconceiçãosantos Says:

    eu acho isso uma falta de conciência de alguns bahianos e soteropolitanos porque são espalhados pontos de mictórios tanto pela nossa prefeitura quanto pelo nosso governo!!!

  2. giulenoconceiçãosantos Says:

    eu acho um absurdo!

  3. barreto Says:

    pois eu adoro mijar no tempo. coisa de índio, de branco ousado metido a preto liberto, baiano sim sinhô. vez em quando saio fora de casa e mijo no quintal, de preferência à noite, lua cheia, sentindo o ventinho nas partes… uma delícia! tem mais: odeio aqueles mictórios públicos fedorentos, aquela química me dá falta de ar e o mijo não sai, pronto.
    nada como a liberdade de mijar no (ao) tempo, livre, como no paraíso. coisa de baiano, recôncavo, mulato. conheço mulheres baianas que também adoram mijar no tempo e assim o fazem no carnaval, em festas de rua, na praia, num pé de mato, num canto, baixando a calcinha, saia escondendo as partes, felizes olhando o mundo, aliviadas.

  4. Jorge Portugal Says:

    Jary, meu rei:

    Há mijadas e “mijadas”. Pior do que a mijada dos baianos nos postes e viadutos da vida, é a “mijada” corrosiva que certas redes de tv aberta dão na cabeça do povo, todos os dias, promovendo o atraso intelectual de nossa gente. Mijada da casa grande na cabeça da senzala.

  5. Denis Says:

    Mijar na rua, no asfalto, no chão de asfalto, no paralelepípedo, dá um fedoooorrrr desgraçado no ar. Certo faz a minha cachorrinha de apartamento, a Mel, que caminha sem coleira, sempre colada na minha perna, mas, quando tem vontade de mijar, corre com velocidade, se arrisca ao atravessar a rua… tudo para chegar num matinho que tem do outro lado, uma graminha onde o xixi é totalmente absorvido rapidamente. A reportagem da Globo deveria ter mantido a pauta (higiene), mas tocado em outro assunto, bem mais importante: a falta de banheiro limpo em pontos turísticos de Salvador. Exemplo: Mercado Modelo, cartão postal, cheio de turistas: tem bosta no azulejo do banheiro dos restaurantes do último andar. As torneiras não funcionam direito, nem a descarga. Não tem papel, sabonete…Como ter vontade de comer uma boa comida baiana num ambiente como esse? Em São Paulo, já entrei em banheiro de estrada (de estrada!!) para o litoral que até a porta abre sozinha, para vc não precisar mexer em nada, apenas no pinto que, no meu caso, está quase sempre limpo.

  6. Tom Cardoso Says:

    Enfim, “Uma mão no pinto e uma idéia na cabeça”

    • jarycardoso Says:

      Pronto, você está contratado por este blog para postar boas tiradas. Sua primeira tirada, afinal, está no ar – confira lá no começo do blog. Só hoje percebi que aquele seu comentário me chamando muito apropriadamente de “falso baiano” estava em quarenta como spam.

  7. Vilma Nascimento Says:

    Eu, mineira, quando vinha passear na Bahia, fazer cursos, passar carnaval, festas de largo, etc., nos anos 70 e 80, confesso que nunca tinha visto tantos bons bilaus na minha vida como nas ruas da Bahia – achava tudo normal, pois eles faziam xixi com tanta naturalidade…

  8. Cristiano Says:

    Olha meu amigo, isso não tem nada de cultural. É relaxamento mesmo, sem falar na falta de respeito de quem passa na rua, crianças, mulheres entre outros.

    JEITO DE SER

    Talvez, nosso hábito sulista, meio europeu, de ver as coisas organizadas, entre em conflito com o jeito nativo de ser de algumas pessoas. Aqui seria difícil achar normal um marmanjo tirando o pigolim pra fora e mijar nos pés de tua mãe ou irmã.

    RESPONSABILIDADE

    Se parte da responsabilidade desse problema cabe as autoridades públicas, outra parte cabe aos cidadãos. O que não pode é transformar a cidade num grande mictório. Já tinha ouvido falar aqui no RS do odor de mijo em muitas cidades turísticas da Bahia.

    Apesar da liberdade de mijar de vocês,

    Capricho sempre é melhor.

  9. kamilla veras Says:

    olha criatura talvez nao seja um ato muito limpo mijar nas ruas mas nao cabe a voce e muito menos uma rede de tv dizer o que se tem que fazer ou nao.
    na realidade os sulistas nao tem jeito de ser algum e muito menos cultura. o que voces chamam de cultura é uma usurpaçao de outras culturas.
    nem identidade propria os sulistas tem, sao pessoas sem graça e americanizadas.
    o que eles sentem em relaçao a nós nordestinos é uma inveja imensa, pelo fato de termos uma cultura extremamente rica.

  10. francisco jose Says:

    é ótimo mijar na rua, me dá seu endereço que vou passar todos os dias na frente da sua casa dar minha contribuição

  11. Denis Says:

    Tem uns carinhas europeus que, na verdade, adoram ver um pau nativo.

  12. Marlon Marcos Says:

    Recorro com culpa a essa “liberdade baiana”. Moro no Centro da cidade e fede muito muito muito. Sinto-me invasivo mijando nas ruas. Quanto à análise do jornalismo global: fico em paz… Mijamos nas ruas e eles cagam aleatoriamente corroendo a nossa inteligência. Somos, então, como mijadores de rua menos nocivos para a cultura brasileira.

  13. Sidney Falcão de Carvalho Says:

    Talvez a matéria na TV tenha exagerado na manchete, mas é fato que a mania de alguns baianos urinarem na rua é irritante e é falta de educação sim.

    Alguns têm a cara de pau de dizer que urinam na rua poque não tem banheiro público suficiente ou porque estão “apertados” demais. Parece que neste último caso, as baianas são mais “resistentes” do que os baianos.

    E ainda há aqueles que defendem o ato, justificam, acusam que a matéria foi discriminatória. Ok será que se eu urinasse na porta da casa desses que defendem a idéia, na frente de seus familiares, será que seriam tão tolerantes? Justificar o ato dizendo que é uma “discriminação aos nordestinos”, não é nenhum pouco inteligente. Sou nordestino, sou baiano e não ando mijando nos muros e portas de ninguém. E outra, será que os nordestinos de outros estados comungam dessa idéia, concordam em serem incluídos nesse “balaio de gato”? Nessa hora, alguns baianos lembram dos outros nordestinos, né? Mas não se cansam de fazer piadas com sergipanos ou se acharem superiores aos pernambucanos.

    Acredito que se na Bahia, o ato de urinar nas ruas não fosse tão corriqueiro, provavelmente essa matéria nem existiria.
    Portanto, senhores “mijões”, eduquem-se e não culpem os sulistas ou outros povos, afinal, o mijo é de vocês.

  14. Tuzé de Abreu Says:

    Sem querer defender a Globo, não acho bacana urinar na rua, principalmente por causa do cheiro que fica. Alguns lugares são verdadeiros “mijódromos”, como o passeio ao longo dos armazéns da Codeba. Como bom baiano vou confessar uma mijada importante, que poderia ter me levado à cadeia. Certa feita estava em Nova Iorque e fui assistir a uma ópera. Quando acabou, eu estava muito apertado, e comecei a procurar o sanitário. Não só não achei como de repente me vi saindo junto com carros vindos de um estacionamento interno. Não tinha retorno, eu não tinha como voltar, então saí andando meio alucinado, quando vi uma ruinha transversal, pequena e escura, com umas latas de lixo, igual às que aparecem em filmes policiais. Não tive dúvida. Mesmo com medo de ser preso, urinei ali mesmo, felizmente sem consequência ruim.

  15. Edmundo Carôso Says:

    A questão não é mijar ou não mijar na rua. A pergunta que não quer calar é: onde estão os lugares dignos e apropriados para mijar sem que se tenha a sensação de se estar fazendo isso dentro do próprio esgoto (sendo você o dejeto) – que é como se pode chamar, sem sombra de dúvidas, aquelas imundícies que eles denominam sanitários públicos? Por que me desrespeitam e eu não posso dar o troco?

    Dentro desse contexto – e com locais tão aprazíveis na cidade da Bahia – sem remorso ou culpa de qualquer espécie, gritou a bexiga, solto meu pobre pinto e mando água.

    Ahhh, que alívio! Quem nunca experimentou não sabe o que está perdendo.

  16. katherinefunke Says:

    Uma vez, como repórter, flagrei um cidadão agachado, a cagar embaixo do painel de azulejos em homenagem à chegada de Tomé de Souza, no Porto da Barra. Esperei o cidadão levantar, puxar as calças para cima e vir andando para perguntar se ele sabia onde havia aliviado os intestinos. Respondeu: “Ué, isso aqui não é a Bahia?” Aconteceu de verdade…

  17. MARCELO Says:

    O autor está confundindo o “apontar de dedo” em um hábito de gente nojenta, com preconceito. Ninguém falou mal dos baianos e sim dos baianos que urinam em becos, atrás de árvores, embaixo de passarelas, em fim, qualquer lugar onde possa fazê-lo, escondido ou não. A Bahia sempre foi famosa no Brasil todo, e não somente no Sudeste por ser uma terra onde muitos mijam à céu aberto. E não é o baiano como um todo e sim muitos que moram em Salvador, e na sua maioria, soteropolitanos. Não se vê isso no interior, como em Feira de Santana, por exemplo (pelo menos nunca vi). As reportagens locais, sejam escritas ou televisivas, nunca tocam neste assunto, como se ele não existisse.
    Uma vez, levei um casal de amigos estrangeiros para verem o Farol da Barra, num dia de domingo pela manhã. Ao darmos a volta no Farol, vimos 3 moleques mijando. Demos a meia volta, e ele não quiseram voltar mais lá. Apesar de não ser baiano, fiquei com extrema vergonha… de ser brasileiro.

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