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SALVEMOS SALVADOR ENQUANTO É TEMPO

24/07/2009
Trânsito truncado na Orla marítima de Salvador. Foto: Welton Araújo | Agência A Tarde
Trânsito truncado na Orla marítima de Salvador. Foto: Welton Araújo | Agência A Tarde
Selva de rochas gigantes na Pituba. Foto: Iracema Chequer | Agência A Tarde 24.7.2009
O bairro da Pituba se verticaliza. Foto: Iracema Chequer | Agência A Tarde 24.7.2009

PAULO ORMINDO DE AZEVEDO*

O 460º aniversário de Salvador passou quase despercebido. Realmente não há muito a comemorar. Em 60 anos de “laissez-faire”, a cidade acumulou índices assustadores de compactação demográfica e veicular, concentração de pobreza, insegurança e destruição do meio ambiente, que apontam para seu colapso em curto prazo.

A cidade possui hoje 4.172 habitantes por km², densidade superior à de Bombaim, segunda colocada. Para piorar, a urbe se transformou, por falta de política metropolitana, em dormitório e provedor das necessidades de 3,76 milhões de moradores da Grande Salvador.

Camaçari, Lauro de Freitas, Simões Filho e Candeias juntas faturam receita igual à de Salvador, transferindo para esta o passivo de serviços e infraestrutura.

Seu déficit habitacional é de 100 mil habitações, das quais 80% são de famílias fora do mercado imobiliário. Para satisfazer aos 10% dos candidatos com renda superior a cinco salários mínimos, o novo Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU) consentiu que o setor imobiliário devorasse as entranhas verdes da cidade, a orla e os bairros consolidados.

Avenida Paralela travada. Foto: Thiago Teixeira | Agência A Tarde 12.7.2009

Avenida Paralela travada. Foto: Thiago Teixeira | Agência A Tarde 12.7.2009

Cerca de 35 mil novos automóveis e o dobro de motos são licenciados a cada ano. O metrô de Salvador, cuja construção dura seis anos, é dos mais caros do mundo. Terá 6 km, seis trens e custará R$ 1,16 bilhão, se inaugurado em 2010. No Recife, o metrô foi construído em dois anos, tem 34,7 km, 25 trens, transporta 180 mil por dia e custou R$ 750 milhões, segundo H. Carballal (A Tarde, 23/3/09). Isto para não falar no impacto ambiental e déficit operacional.

As duas saídas rodoviárias da cidade, a Paralela e a BR-324, estão no limite e ainda se fala em construir uma ponte para Itaparica para trazer os caminhões da BR-101 para o nó do Iguatemi, em vez de construir um arco rodoviário. Isto quando Manhattan e cidades europeias cobram pedágios e proíbem a construção de novas garagens para evitar a entrada de mais carros.

Em Salvador, alguns apartamentos centrais têm até seis vagas. Não há planejamento nem qualificação dos projetos públicos, que são oferecidos pelas empreiteiras interessadas, vide a ponte de Itaparica e o parque da Vila Brandão. A Sedham funciona como uma Defesa Civil, mais que um órgão de planejamento. As licitações são feitas em função do menor preço, ou seja, do pior projeto e menor tempo.

O desperdício é grande, viadutos são construídos e não servem para nada, as ruas são refeitas a cada inverno. O Pelourinho é recuperado todo ano. Os conjuntos habitacionais, sem serviços, são novas favelas, estão se desfazendo.

E vai-se implodir o parque olímpico da Fonte Nova, cujo laudo da Politécnica diz ser recuperável, para construir uma nova arena menor e um shopping, para dois dias de festa. O que acontecerá com a Copa, se chover, com a cidade alagada e parada como se viu há pouco?

As questões ambientais têm o mérito de nivelar todos. Os condomínios fechados da Paralela foram invadidos por barbeiros, dengue, sapos, lagartos e cobras. O senhor prefeito teve de mudar de casa e gabinete, mas prefere trocar postes cinzas por azuis do que rever um PDDU aprovado com 180 emendas de última hora.

A classe média já não suporta os engarrafamentos e se tranca em torres e condomínios mistos de vida monástica, com celas, refeitório, oficinas, botica e orações televisivas no mesmo lugar.

O marzão no horizonte é a prova de que a cena acima não fica em São Paulo. São prédios da Avenida Tancredo Neves, região oeste da capital baiana. Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde 31.3.2009

O marzão no horizonte é a prova de que a cena acima não fica em São Paulo. São prédios da Avenida Tancredo Neves, região oeste da capital baiana. Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde 31.3.2009

Considerada patrimônio da humanidade, Salvador mergulha hoje na mediocridade imobiliária. Fernando Peixoto lamentou a “paulistização” da cidade. Arilda Cardoso denuncia a perda de patrimônio histórico e verde. Neilton Dórea constata: “Hoje, há uma arquitetura dependente… A maioria (dos arquitetos) é desenhador de uma vontade empresarial” (Muito, de 29/3).

Mas não devemos ser pessimistas. A sociedade civil se organiza em movimentos como “A Cidade Também é Nossa” e “Vozes da Cidade”, os ministérios públicos, federal e estadual, assumem o papel que lhes cabe.

Não é desmatando, segregando e verticalizando que se vai resolver os problemas de Salvador, senão pensando grande e democraticamente, compreendendo que Salvador só tem saída na região metropolitana. São estas questões que cidadãos, ricos e pobres, de Salvador querem discutir, antes que a cidade entre em colapso completo.

*Paulo Ormindo de Azevedo

Arquiteto, doutor pela Universidade de Roma, professor titular da Universidade Federal da Bahia, presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil – Depto. da Bahia (IAB-BA)

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(Em contraste com esses cenários degradantes denunciados por Paulo Ormindo, veja abaixo algumas imagens antigas da Cidade da Bahia repassadas pelo historiador baiano Luiz Alberto Moniz Bandeira que vive na Alemanha)

Campo Grande e seu Monumento ao Caboclo, dedicado aos heróis da Independência do Brasil na Bahia, Centro de Salvador, década de 70 do século XIX. Foto: Arquivo A Tarde
Campo Grande e seu Monumento ao Caboclo, dedicado aos heróis da Independência do Brasil na Bahia, Centro de Salvador, década de 70 do século XIX. No horizonte, a Baía de Todos os Santos, hoje escondida atrás dos edifícios. Foto: Arquivo A Tarde
Igreja do Bonfim. Reprodução: Carlos Casaes | Agência A Tarde
Igreja do Bonfim. Reprodução: Carlos Casaes | Agência A Tarde
Itapoã (Igreja e Largo) no final do século XIX. Foto: Arquivo A Tarde
Itapoã (Igreja e Largo) no final do século XIX. Foto: Arquivo A Tarde
Bairro do Rio Vermelho no final do século XIX. Foto: Arquivo A Tarde
Bairro do Rio Vermelho no final do século XIX. Foto: Arquivo A Tarde

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