A CIDADE DA BAHIA PEDE SOCORRO

08/11/2009 por jarycardoso
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Ilustração: CAU GOMEZ

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Ilustração: SIMANCA

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Ilustração: CAU GOMEZ

ABC DE SALVADOR


por LOURENÇO MUELLER


MEU PASSEIO TEM BURACOS

ONDE A GENTE TORCE O PÉ

NINGUÉM FAZ NADA POR ISSO

MESMO ASSIM NÃO PERCO A FÉ


NÃO PERCO A FÉ NO ALCAIDE

POIS EU MESMO O ELEGI

VAI QUE ELE NEM SABIA

DESSE BURACO DAQUI


BURACOS NO MEU PASSEIO

BURACOS NA MINHA RUA

SÃO TANTOS ESSES BURACOS

QUE ESSE “ABC” CONTINUA


C’OS BURACOS DA MINH’ALMA

JÁ CANSADA DE ESPERAR

QUE UM BELO DIA APAREÇA

ALGUÉM QUE POSSA AJUDAR


AJUDAR A COMPREENDER,

A RESOLVER A CIDADE

CIDADE ONDE EU NASCI

E FIZ UNIVERSIDADE


DEPOIS CONHECI O MUNDO

QUE SE DIZ CIVILIZADO

VI MUITA COISA DECENTE

MUITO LUGAR “DESCOLADO”


MAS É DESTA URBE AGORA

QUE QUERO SEGUIR FALANDO

DOS POLÍTICOS DAQUI

QUE POUCO ESTÃO SE IMPORTANDO


QUE AS CASAS DESAPAREÇAM

DESPENCANDO DAS ENCOSTAS

BARBEIROS, AEDES AEGIPTY

NOS PICANDO PELAS COSTAS


QUE’OS CARROS NOS ATROPELEM

MESMO EM CIMA DAS CALÇADAS

E MENINOS NOS SINAIS

NOS FAÇAM SENTIR CULPADOS


POUCOS ESTÃO SE IMPORTANDO

COM IDEIAS URBANÍSTICAS

CAPAZES DE EXORCIZAR

TODAS AS COISAS MÍSTICAS


DA AFRO CIDADE BAHIANA

CIDADE DA CAPOEIRA

CIDADE DO CANDOMBLÉ

MAS DE TANTA DESGRACEIRA…


…E ELES SEGUEM VOANDO

COM AS PASSAGENS DE GRAÇA

SE LOCUPLETANDO E RINDO

DO MEU POVO E SUA DESGRAÇA


O QUE EU QUERIA MESMO

ERA UMA CIDADE FELIZ

MAS SERÁ QUE TEM A VER

COM SUA FORMA DE SER?


SE TEM A VER COM A FORMA

O DESENHO DA CIDADE

VOU SEGUINDO ESTE RISCO

PROJETANDO O ASTERISCO…


MAS É SÓ ZONEAMENTO

RESPEITANDO A DENSIDADE

ÍNDICE DE UTILIZAÇÃO

E TAXA DE OCUPAÇÃO


QUEREMOS UMA CIDADE

QUE SEJA COMO O ARCOÍRIS

ILUMINE NOSSA ÍRIS

E VIVA A DIVERSIDADE


QUE ATRAVÉS DESSE OLHAR

CADA QUAL EM SEU ESPAÇO

SE VIVA COMO QUISER

SE MORE NESSE PEDAÇO


E ASSIM NO PENSAMENTO

CARREGADO DE UTOPIA

TUDO É MUITO COLORIDO

E JAMAIS PERDE O SENTIDO


MAS DESPERTANDO DO SONHO

SINTO A DURA REALIDADE

OLHO AO REDOR DE MIM

E VEJO A PERVERSIDADE


DESCONFIO QUE NEM SE POSSA

SER FELIZ NESTE LUGAR

POR CONTA DA INSEGURANÇA

E DO POUCO AMOR PRA DAR


E TAMBÉM PORQUE A CIDADE

FICOU FEIA DE DOER

POR CAUSA DE UNS ESPIGÕES

SÓ TE CHAMANDO PRA VER


EU ME RESERVO O DIREITO

DE FUGIR FIM DE SEMANA

SAIR DESTE NÃO-LUGAR

PRA TOMAR BANHO DE MAR


MAS SÓ SAIO DA CIDADE

POR NÃO ENCONTRAR PESSOAS

CAPAZES DE CONVIVER

COMER, BEBER E VIVER


MAS POR QUE ESSAS PESSOAS

NÃO SAEM MAIS DOS CASULOS?

É FALTA DE ENTENDIMENTO?

DIFÍCIL O DESLOCAMENTO?


SE DESLOCAR NA CIDADE

CADA VEZ MAIS COMPLICADO

MAIS DIFÍCIL E PERIGOSO

MELHOR FICAR OCIOSO


E NESSA OCIOSIDADE

A BARRIGA VEM CRESCENDO

VAI FICANDO ARREDONDADA

POR CULPA DESSA MORADA


MAS NÃO É DESSA MORADA

QUE ME TOCA FALAR MAL

PREFIRO MALHAR O RESTO

NESSE CONTEXTO GERAL


CONTEXTO GERAL URBANO

DE UM SOLO-MERCADORIA

QUE SE VENDE, QUE SE TROCA

QUE VIROU ALEGORIA


QUE O SOLO É COMO O PENDÃO

QUE “A BRISA BEIJA E BALANÇA”

E QUE TANTO INFLUENCIA,

DO BRASIL, NA GOVERNANÇA


O SOLO NÃO PODE SER

PRIVATIZADO NA URBE

TEM QUE SER DA UNIÃO

PRA QUE NINGUÉM SE PERTURBE


DA ALDEIA ÀS MEGALÓPOLIS

PASSOU-SE MUITO LIGEIRO

SÓ QUE NINGUÉM LEMBROU

QUE O CARRO CHEGOU PRIMEIRO


E FERROU COM TODO MUNDO

MATOU GENTE NAS CALÇADAS

TIROU O POVO DAS RUAS

MERECIA UMAS PALMADAS


MAS NÃO! ATÉ GANHA APLAUSOS

ESSE REIZINHO DO CONSUMO

ESSA CARROÇA ASSASSINA

QUE COM POVO NÃO COMBINA


ENTÃO SÓ HÁ MESMO UM JEITO

DE ACABAR COM ESSA MATANÇA

TIRAR DAS RUAS O DITO

E DESFAZER ESSE MITO


OS CARROS SÃO SÓ UM MITO

POIS COM TANTOS DELES JUNTOS

NA CIDADE ENGARRAFADA

A VIDA FICA ENTALADA


ENTALADA EM MINHA GARGANTA

DE URBANISTA IMPOTENTE

PRA DIZER A QUEM DECIDE

QUE CARRO SÓ MATA GENTE


QUE NOS TIRA NOSSA PRAÇA

NOSSA RUA E MEU JARDIM

QUE NÃO RESTA MAIS LUGAR

ONDE NÃO QUEIRA PARAR


MUDOU-SE A CARA DE TUDO

TRAMA VIÁRIA INFERNAL

PRA PERMITIR QUE A CARANGA

NOS ATROPELE AO FINAL


CAUSA QUE MATA MAIS

QUE AIDS, CÂNCER OU CORAÇÃO

O CARRO NA BIG CITY

AGORA É O GRANDE VILÃO!


TIREMO-LO PELO MENOS

DOS NOSSOS CENTROS URBANOS

SE ALGO TEM QUE DESVIAR

NÃO SEJAM OS SERES HUMANOS


SEJAM ENTÃO AS VIATURAS

ESTAS MALDITAS FIGURAS

ENCOURAÇADAS EM AÇO

PRA MELHOR TIRAR PEDAÇO


SOBRETUDO DOS MAIS POBRES…

MAS RICOS TAMBÉM SE ATROPELAM

OU ATIRAM NO OUTRO ENTE

QUE NÃO QUIS SAIR DA FRENTE


JORNAL, REDE E TV

VEMOS ISSO TODA HORA

REPITO, SÓ HÁ UM JEITO

É DEIXAR ELE DE FORA


DE FORA DESSE CONTEXTO

DE FORA DO NOSSO TEXTO

REDESENHAR A CIDADE

ACHO ESSE UM BOM PRETEXTO


DE SEPARAR BEM AS COISAS

NÃO QUERO MATAR O CARRO

MAS QUERO QUE NÃO NOS MATE

E NÃO SEJA UM DISPARATE…


NÃO GASTE TANTO PETRÓLEO

NEM SE POLUA TANTO

SE OCUPE MENOS ESPAÇO

SE VIVA COM MAIS ENCANTO


ENCANTO DE ANDAR NAS RUAS

LADRILHADAS COM PEDRINHAS

TRANSFORMADAS EM JARDINS

PARA VER MEU BEM PASSAR


NOSSA CIDADE UTÓPICA

DA ARTE SERIA O CENTRO

NAS RUAS, O ELEMENTO

DE TODO ESSE ENCANTAMENTO!


VOLUMES ACIMA DO SOLO

O TÉRREO TODO VAZADO

MISTURADO COM AS FLORES

TUDO MUITO BEM CUIDADO


CADA UNIDADE UMA ALDEIA

CONDOMÍNIO SUSTENTÁVEL

PRA TRANSFORMAR ESSE NÚCLEO

EM UM NEGÓCIO VIÁVEL


NA CIDADE DOS SENTIDOS

EM CADA ALDEIA UM DISCURSO

ALEGRIA, HUMOR E ARTE

E ASSIM SE ACABA ESSA PARTE.


CANDOMBLÉ PARA ALÉM DO BEM E DO MAL

08/11/2009 por jarycardoso
AUGUSTO CÉSAR

Iroko do Terreiro de Oxossi, em Portão, Lauro de Freitas. Foto: REJANE CARNEIRO | Agência A Tarde 14.1.2009

por VILSON CAETANO DE SOUSA JUNIOR*


O problema do mal é difícil e complicado de ser entendido, um mistério que ainda hoje está para ser desvendado. Em linhas gerais quando nos referimos ao mal, nos remetemos logo à figura do Diabo entendido como adversário de Deus, espírito sedutor, enganador e aniquilador de almas.

Se não podemos prever o momento do surgimento da noção do mal, a imagem do Diabo, ao contrário é algo historicamente construída, fruto do encontro de crenças antigas vindas, ora do Judaísmo, ora da Grécia, ora de Roma, ora dos Persas, ora dos Iranianos, ora do Cristianismo que a partir do século XVIII recorreu à imagem do Deus grego Pã, deus dos campos, dos camponeses, com chifres, cascos, rabo, orelhas e partes inferiores do corpo peludas. O tridente teria vindo de Netuno, deus dos mares.

Não vamos, todavia, nos deter nesta discussão que contemporaneamente foi abandonada pelos seus principais difusores dentre nós, a exceção das chamadas igrejas neo-pentecostais onde tal figura aparece com “toda força”, provocando desgraça na vida das pessoas ou até mesmo se apoderando do corpo delas, daí a importância do chamado exorcismo, termo que ao passar do tempo cede lugar para a palavra “expulsão”, esta certamente mais forte.

O MAL PERSONIFICADO

Desde a Antiguidade, o que muda quando nos referimos ao mal é apenas a sua concepção. Em outras palavras, há momentos em que o mal faz parte da natureza do sagrado, e outro onde ele é personificado.

Esta última abre uma série de problemas a começar pela ideia de que se o Diabo não foi criado por Deus, então ele se autocriou; logo, ocuparia o mesmo nível da Divindade do Bem.

Aqui paramos esta discussão, pois tanto os povos ameríndios quantos os povos africanos não conheciam estas ideias, embora nunca tivessem ignorado a noção do mal.

Pena que quando esse mal personificado atravessou o Oceano Atlântico com os missionários católicos, ele ganhou a aparência de nossos índios e africanos, ele foi colocado no nosso corpo, legitimado pelas nossas características físicas.

Ainda hoje, as religiões de matriz africana são associadas ao mal. Eu mesmo, cresci ouvindo que “candomblé era coisa do Diabo”.

Não poucas vezes sou interrogado: “Por que o candomblé faz o mal para as pessoas?”. Sem contar a série de artifícios narrados por alguns para justificar a falta de dinheiro, doença, separação,até mesmo a morte realizada pelos chamados “candomblezeiros”, em outros estados “macumbeiros”, “catimbozeiros”, “juremeiros”, assim por diante.

Nestas ocasiões antes mesmo de irmos ao embate com a pessoa é melhor ouvir – quem sabe não aprendemos alguma coisa?

Fato é que vivemos no mundo do medo. O medo no mundo moderno é uma realidade, sem falar do fato que historicamente demonizamos sempre o diferente, aquilo que achamos feio. Demonizamos para dominar.

É bem certo que se não tivéssemos o desejo de impor as nossas verdades, o Diabo como uma personificação do Mal não existiria e esse último seria visto no mundo como contingente, passageiro, algo em que não nos ocuparíamos nem com a sua origem nem com o seu começo, mas infelizmente temos que enfrentá-lo.

EXU NÃO É A PERSONIFICAÇÃO DO MAL

Vários autores se debruçaram a fim de dar uma explicação sobre a associação da figura do Diabo ao orixá Exu, ou ao Nkice Nzila, ou ao Vodun Elegbara.

Como não sou especialista em Demonologia, estudo sobre as representações do demônio, vou me limitar a falar sobre estes princípios de comunicação, pois esta é a função que estes ancestrais cumprem dentro das religiões afro-brasileiras.

Para que imagem mais bonita do que a de Nzila, literalmente o “caminho”, mas não qualquer caminho, “todos os caminhos”, caminhos que formam as linhas, demarcam os pontos cardeais, caminhos que se atravessam, se recortam, se redefinem, se criam, recriam-se o tempo todo, caminhos que se encontram no centro de todos os caminhos para dali partirem novamente para o mundo, a encruzilhada.

Geralmente quando vou falar especialmente sobre o ancestral Exu utilizo a seguinte imagem: quando você envia uma carta para alguém, há um remetente e um destinatário. Exu é o caminho imaginário entre estes dois.

Sem Exu, a carta nunca chegaria ao seu destino, mas é Ele mesmo que nos faz andar, pular, saltar, ter êxito, vontade, alegria, falar, daí um de seus nomes Elegbara, senhor do corpo, corpo negro e negra que dança, samba, ginga, é lugar de oração, mas é o tempo todo estigmatizado porque é negro.

Bara significa corpo, caminhos. Exu é tudo isso. Sem esse princípio nada se concretiza.

Infelizmente algumas pessoas ainda concebem esses ancestrais como a personificação do mal sugerida pelos missionários católicos e atualmente as igrejas neopentencostais. Assim são chamados de “escravos dos orixás”.

É digno de nota que no contexto da escravidão, momento onde as religiões de matriz africana foram reelaboradas, o medo também foi utilizado pelos africanos como defesa, e, certamente, acabadas todas as esperanças, apenas lhe restaram estes ancestrais cuja concepção estava ligada ao próprio corpo.

Num período mais adiante quando os ancestrais foram concebidos por uma religião brasileira que acabava de nascer, a Umbanda, Exu foi de fato identificado com o Diabo, mas não com a personificação do mal.

Se de um lado ganhava-se, como alguns acreditam, com a valorização de algumas classes marginalizadas, deixava-se de lado parte de uma das maiores contribuições das religiões tradicionais africanas às religiões afro-brasileiras ao incorporar velhas dicotomias como bem/mal; luz/trevas; dia/noite; espírito/matéria.

SANTOS QUE A ÁFRICA NÃO VIU

E a chamada Pombagira? Nada mais é do que a expressão Npombo Nzila mal ouvida, o que chamamos de corruptela do nome, o que nada tem a ver com a sua representação, uma mulher de saia que exibe sensualidade.

Maria Padilha é outra imagem a parte. Essa, sim, ora é portuguesa, ora é espanhola. No romance surgido no século XIX aparece como uma das amantes do rei de Castela. Foi trazida ao Brasil na memória das órfãs ou mulheres degredadas que tiveram contato com o imaginário que inspirou o escritor a escrever a obra chamada Carmem, que conta a paixão de um homem por uma cigana que arruína a sua vida.

São apenas dois exemplos de “santos que a África não viu”, ao lado de tantos outros que são associados ao Diabo porque estão mais próximos dos seres humanos.

A TENTAÇÃO E O BEM ESTÃO NO MUNDO

Mas voltemos à questão do mal. Em linhas gerais ele não é personificado, o que não nega a sua existência. Como se ouve em alguns terreiros “a tentação está no mundo”. Devemos fugir dela. Devemos passar pelo mundo sempre fazendo o bem, fazendo o bem a tudo e todos. Diante de algumas situações devemos demonstrar fraqueza, para assim irmos levando a vida.

Mas o que é o bem? O bem também está no mundo, devemos buscá-lo sempre. Se estivermos sempre em busca do bem, o mal nunca chegará até nós, nunca nos enxergará, pois eles andam um ao lado do outro.

O bem está ligado a tudo que junta, ou como se ouve dos tios e tias “que ajunta”. O bem é tudo que mantém o universo integrado, pois fomos feitos para compor o Universo. É o ajô, por exemplo, a união, integração, tudo que faz retornar à comunidade. O contrário é o ejó, o que separa, o que rompe, o que desintegra.

Se somos parte da teia, o princípio é que devemos sempre procurar estarmos agarrados a ela.

NÃO HÁ PURO BEM, NEM PURO MAL

Há um provérbio que nos ajuda a entender um pouco mais esta visão:

Não há bem que seja puro bem e não há mal que seja puro mal”.

Ou ainda aquele que diz:

Não há mal que sempre dure, não há bem que sempre perdure”.

Talvez isso nos ajude também a entender a história de um viajante que atravessou dois continentes para chegar até uma casa de candomblé para “colocar uma mesa”, como se falava anteriormente antes de a expressão jogar búzios entrar na moda. Antes mesmo do viajante chegar até o local onde se realizavam as consultas, a sábia Iyalorixá, profundamente conhecedora e respeitadora de suas tradições, já havendo sido alertada pelos orixás, após ter submetido o viajante a algumas horas de espera a fim de “descansar o corpo da rua”, ou mesmo fazer-lo desistir da intenção, saiu rapidamente olhou para a pessoa e com voz forte altiva falou:

Estava mesmo lhe esperando, já chegou até aqui, veio de tão longe, descansou o corpo, esfriou a cabeça, agora vá em paz meu filho, você já encontrou a resposta que queria, nesta casa não tem o que você veio buscar, pois eu não conheço segredo para o mal.

A pessoa baixou a cabeça, lacrimejou e entendeu que caminho semelhante ele poderia ter feito para buscar o bem. Entendeu também que o mal na vida deve ser visto como contingente, ele é o que menos importa, ele serve muito mais para quem acredita que pode realizá-lo, do que para quem é capaz de receber.

Na dúvida era melhor retornar ou sair pelo mundo a procura do bem, pois somente este garante a nossa permanência na teia da vida.


*Vilson Caetano de Sousa Junior – Doutor em Antropologia, professor da Escola de Nutrição da UFBa, filho do Terreiro Pilão de Prata

A GROSSERIA BAIANA

08/11/2009 por jarycardoso
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Ilustração: CAU GOMEZ

 

 

por ANTONIO RISÉRIO

Outro dia, numa conversa, nossa first lady Fátima Mendonça, comentando certas cenas que presenciara, se lamentou da crescente falta de educação das pessoas. Concordei imediatamente com ela.

E disse que isto era especialmente triste em Salvador, que já foi uma cidade de pessoas gentis e educadas, tanto em recintos fechados quanto nos espaços públicos. E em todas as classes sociais. Mas que hoje, e também em todas as classes sociais, é uma cidade onde a vulgaridade e a grosseria predominam. Não sei se ela concordou comigo.

Mas aproveito a ocasião para rabiscar uma nota sobre o assunto. Porque, diante do fenômeno urbano, é possível distinguir entre, pelo menos, quatro coisas: urbanização, urbanismo, urbanicidade e urbanidade. E não custa nada definir, mesmo que superficialmente, esses termos. Recorrendo livremente a John Palen – e colocando algumas azeitonas em sua empada.

Urbanização diz respeito ao aspecto quantitativo do fenômeno. Ao número e à dimensão de cidades num país – a coisas como “taxa de urbanização”, etc. Urbanismo, por sua vez, é o campo das reflexões, dos projetos e desenhos, das configurações físicas da cidade. Mas não é com urbanização ou urbanismo que lidamos, neste momento. E, sim, com urbanicidade (como pano de fundo) e com urbanidade (a questão que provocou as observações de nossa primeira dama).

Urbanicidade é um termo que diz respeito ao aspecto sócio-cultural da questão. É o lado cultural humano da urbanização. Diz respeito aos padrões sociais e comportamentais associados ao viver em cidades. À personalidade do urbanita (atenção: é urbanita mesmo e não urbanista; o urbanita é o indivíduo citadino). Às mudanças sociais, culturais, psicológicas, etc., provocadas pela urbanização. Aos estilos e técnicas citadinos de viver.

Urbanidade, por fim, tem dois sentidos. De uma parte, é um ideal de comportamento urbano – tanto da sociedade quanto no plano individual. De outra parte, diz respeito à educação urbana, à lhaneza no trato social. Meu amigo Marcelo Ferraz, em suas discussões de arquitetura e urbanismo, costuma lembrar que o pai dele costumava empregar a expressão.

De fato, não faz tempo, falava-se de urbanidade no sentido de educação pessoal e social. A urbanidade de um lugar era o seu grau de polidez e respeito aos outros e aos bens comuns. Quando alguém empregava a expressão “um sujeito urbano”, por exemplo, estava se referindo a uma pessoa polida, educada. E é exatamente isto o que estamos perdendo ou já foi perdido: a urbanidade. E é a perda de urbanidade que choca nossa querida Fátima Mendonça.

Com inteira, inteiríssima razão. Urbanismo à parte, esta nossa cidade do Salvador, por exemplo, possui um grau razoável de urbanização, um baixíssimo grau de urbanicidade – e parece já não ter a mínima noção do que é ou do que foi urbanidade. Lamentavelmente. Vemos isto em festas, em recepções, nos restaurantes supostamente chiques, em filas para isto ou aquilo, nas relações interpessoais, no atendimento dos serviços públicos, no comportamento diante dos bens coletivos, nos absurdos agressivos do trânsito, etc., etc.

O educado e informado Marcelo Ferraz se pergunta sempre – e, certa vez, me perguntou: em que momento foi que algo se esgarçou e rompeu, para que perdêssemos assim o trato urbano, no sentido da urbanidade, da condição de viver civilizadamente numa cidade? Sinceramente, Marcelo, confesso que não sei em que momento foi. Mas perdemos.

Em A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água (por favor, revisor: não coloque “morte” em caixa baixa, seguindo o atual padrão acadêmico de citar, que foi adotado pelos professorais daqui, mas não tenho nada a ver com isso), Jorge Amado fala dos “ritos de gentileza” do povo da Bahia. Mas esses ritos pertencem já ao passado. É uma pena. Chegamos hoje a um grau baixo demais, em matéria de educação doméstica e urbana.

E isto – esta queda – nada tem a ver com pobreza. De jeito algum. Vivi minha juventude numa cidade pobre, mas que sabia o que era trato urbano. Neste sentido de civilidade. De urbanidade. E adianto, sem que ninguém me pergunte, que me envergonha o fato de que hoje o povo baiano seja imbatível, no contexto brasileiro, em matéria de grosseria e grossura. De falta de educação.

AS ÚLTIMAS DE CAETANO VELOSO

06/11/2009 por jarycardoso

caetano2006-02

Antes de voltar a Sampa com o show Zii e Zie, o cantor e compositor baiano falou sobre Brasil, violência e eleições numa entrevista exclusiva ao jornal O Estado de S. Paulo, publicada em 5.11.2009.

Mais uma vez declarações de Caetano Veloso provocam críticas e protestos de todas as correntes de opinião. Desta vez se destacou o trecho em que ele chama o presidente Lula de analfabeto. Como sempre também, Caetano disse muito mais do que o óbvio ululante, vale a pena conferir:


por SONIA RACY, repórter do “Estadão”

RIO – À exceção de alguns momentos mais incisivos, Caetano Veloso deixou claro, na entrevista ao Estado, semana passada, na sede da Natasha Produções, no Rio, que a maturidade lhe subiu à cabeça. Uma boa sabedoria emerge, fácil, da sua tranquilidade interior.

O posicionamento rebelde do início da carreira, que às vezes assumia as cores da esquerda, deu lugar, hoje, a um discurso racional, realista. Que nada tem, no entanto, das desilusões de quem perdeu a esperança – e isso transparece, com força, quando anuncia sua opção pela candidatura de Marina Silva.

– Não posso deixar de votar nela. É por demais forte, simbolicamente, para eu não me abalar. Marina é Lula e é Obama ao mesmo tempo. Ela é meio preta, é cabocla, é inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula, que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro. Ela fala bem.

Sobre as mudanças propostas na Lei Rouanet, Caetano se esquiva: “Eu sou daquelas moças… não estudei direito”, diz o artista que, na era da tecnologia, não usa sequer o celular, não gosta do Twitter, mas se comunica sempre por e-mail.

E cadê as novas pessoas com a força do talento de um Caetano, um Gil ou Chico? O mundo hoje é de gente pré-fabricada pelo marketing e meios de comunicação? Nada disso. Para Caetano, houve uma mudança tecnológica imensa e também desdobramentos históricos.

– Fico me perguntando: aqueles pintores que ficaram famosos foram mais sagazes em seduzir príncipes ou reis, ou eram mesmo os mais talentosos? Ou foram os que combinaram melhor as duas coisas? Ou os que tiveram a sorte de encontrar um príncipe que gostou deles? A diferença hoje passa por outros canais.

E isso é bom ou é ruim? “Nem bom nem ruim, é o que é.”

Caetano volta a São Paulo amanhã (6.11) – por três dias – para seu show Zii e Zie, no Citibank Hall. Que depois, em 2010, transformará em turnê internacional: março pela América Latina, abril nos EUA, julho Europa e talvez Austrália e Ásia em setembro. Só ao final dele é que pensará no futuro de seu futuro. Aqui, trechos da conversa.


Como você vê o Brasil?

Acabei de ler no New York Times que, possivelmente, o Brasil é o País mais importante do mundo para o qual estão voltados todos os olhos do mundo. Não que o artigo todo seja a favor, é até crítico e contra. Mas parte do pressuposto de que o Brasil é um êxito histórico aos olhos deles, estrangeiros, muito maior do que a gente imagina. Partem do pressuposto de que o Brasil é algo grandioso e falam justamente sobre as provas de que o País não superou o que há de horrendo nele. Se referindo à derrubada daquele helicóptero por traficantes no Rio, à violência, e a uma passividade do Brasil em relação às finanças internacionais, como que dizendo que o País deveria liderar uma virada nessa questão.


E você, o que acha?

Sempre achei que o Brasil é um país com destino de grandeza e uma originalidade fatal.


O que é uma “originalidade fatal”?

Somos um país de dimensões continentais, cujo povo fala português nas Américas, com uma população altamente miscigenada… São muitos fatores estranhos… O português é considerado assim o “túmulo de espírito”. O próprio padre Antônio Vieira disse isso da língua. No entanto, essas desvantagens apontam para uma originalidade enorme, que a gente pode ou não aproveitar. Então eu gosto, por exemplo, de uma entrevista do (ex-ministro) Mangabeira (Unger) no Estadão sobre a Amazônia, em que ele diz que o Brasil devia fazer dela uma experiência de vanguarda tecnológica e de desbravamento de atitudes com relação ao desenvolvimento sustentável. Uma coisa de grande ambição, experimental. Acho que essas visões é que apontam para a verdadeira vocação do Brasil. É assim que eu penso. E olhe que minha candidata à Presidência é Marina Silva.


Você já escolheu?

Pode botar aí. Não posso deixar de votar nela. É por demais forte, simbolicamente para eu não me abalar. Marina é Lula e é Obama ao mesmo tempo. Ela é meio preta, é uma cabocla, é inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro. Ela fala bem. Mas olha, eu concordo com o Mangabeira sobre a vanguarda tecnológica e o desbravamento. Parece uma contradição? Mas é assim.


Talvez não seja. Em nenhum momento o Mangabeira fala em destruição, em uso não sustentável…

Não sei se a Marina diria dessa forma. E acho que há, sim, uma tensão da posição dela em relação à de Mangabeira, embora ela seja a minha candidata. Se ela for, voto nela, com a esperança de que ela, com sensatez que sempre demonstra, acolha a complexidade da realidade. E, no poder, seja mais pragmática que Lula. E mais elegante, o que já é.


A Marina teria condições de gerir um país deste tamanho?

Acho que ela é muito responsável e muito sensata. Se empenhar as energias para ganhar e se tornar capaz disso, ela levará a sensatez ao ponto de poder gerir. Suponho que agora ela não parece ter essa capacidade, com as coisas como estão.


Serra faria um bom governo?

Pode fazer. O Serra foi um excelente ministro da Saúde. Agora, ele é o tipo do cara que, se tivesse ganho no lugar de Lula, em 2002, teria trazido mais problemas à economia brasileira. Ele teria feito um governo mais à esquerda e a economia talvez tivesse problemas que não está tendo porque o Lula fez a economia de direita. E ouve os conselhos de Delfim Neto, que o Serra não ouviria. O Lula foi mais realista que o rei. Foi bom, a economia deslanchou.


E Dilma?

Não tenho ideia. Ela tem um trabalho de pura gestão, mas sem experiência de poder político direto. Ela nunca foi eleita a coisa nenhuma.


A Marina tem?

Ela tem. Os candidatos são todos de nível bom. Vou falar em Aécio, de quem eu gosto muito. Talvez seja meu favorito entre os gestores. Porque acho que o Serra talvez ficasse mais isolado que o Aécio. E a Dilma talvez ficasse muito presa ao esquema estabelecido de ocupação dos espaços estatais pelo governo do PT.


Qual a função do Estado no processo de desenvolvimento?

Não tenho uma ideia precisa. Simpatizo muito com a tradição liberal inglesa e anglófona. Mas não me identifico plenamente com a ideia de Estado mínimo, de liberdade para as transações.


Antes da crise econômica, você era a favor do Estado mínimo?

Não. Eu tinha uma certa raiva daquela onda de Margaret Thatcher e Ronald Reagan, embora simpatize com o liberalismo de língua inglesa. Sempre me vem à cabeça a ideia de que a Margaret Thatcher estaria dizendo algo do tipo “eu privatizaria o ar, se pudesse…” Acho que ela chegou mesmo a dizer isso, pelo menos corre a lenda a respeito. E quando eu vejo essa gente dizer que a única coisa que deve mover as pessoas é o desejo de lucro tenho vontade de me agarrar em São Francisco de Assis, entendeu?


O Estado tem que mexer na Lei Rouanet?

Não sou muito bom nesse negócio. Sou como umas moças que eram bonitas e apareciam nuas nos filmes, e tinham de ter uma opinião política. Eu sou assim. Não sei se tem que mudar. Fico com pena do leitor de jornal, quando sai assim “a excursão de tal cantora foi recusada”, ou “foi aprovada”, ou ainda “pode captar”. Para música popular, o máximo da captação é 30%. Mas 30% de quê? O público lá sabe o que é isso? Para música clássica, pode chegar a 100%… Mas repito: eu sou daquelas moças… não estudei direito.


Mas voltando ao Estado brasileiro, ele é eficiente?

Meu pai foi funcionário público, dedicadíssimo à sua função. Embora estatísticas provem o contrário, ele contrariava as estatísticas. Então eu tenho uma ideia de que o serviço público pode ser amado, a pessoa pode dar todo seu sangue àquilo. E que não apenas o lucro capitalista é a única motivação.


O Estado deve ser um regulador…

Justamente, a ideia é essa. Que ele seja o regulador do equilíbrio de forças. Os governos têm de se submeter à lei, para estar representando o Estado.


Mas é o problema: cumpre-se a lei?

Não, muitas vezes não. Mas esse negócio de Estado muito forte não me atrai. Acho que ele tem de ser firme, mas não tem de ser um Estado de força. A lei tem de ser nítida, obedecida por todos, em primeiro lugar por quem manda. Ele não tem de se meter, tem de regular, para criar um equilíbrio. Agora, é preciso saber se os seres humanos têm essa saúde mental para querer que as coisas funcionem assim. A vida é complicada, dolorosa, difícil, as pessoas na verdade vão para atitudes muito irracionais… Sabe quem eu acho que tem o discurso mais interessante sobre como a gente, em coletividade, se comporta e como é complicado ter esperança? Freud. Acho que Freud fala de modo mais interessante sobre possibilidades do homem como ser social, do que os marxistas e do que muitos liberais. Pessoas não podem ter esses poderes enormes.


E o que acha da América Latina? No que ela está se transformando com pessoas que têm esses poderes enormes?

Tem uma recaída num negócio que é tradicional aqui, a figura do líder populista – uma linha demagógica liderada por Hugo Chávez. Mas o interessante é que Lula tem um papel bem diferente disso. Lula é um grande líder populista, mas é mais pragmático – mesmo com essa euforia em que entrou desde a posse até hoje. Ter tido Fernando Henrique e Lula em seguida é um luxo. Saíram melhor que a encomenda, ambos.


O Rio tem um desafio, de se pôr em ordem até 2016. Vai dar?

Ele tem de conseguir alguma coisa. Eu li na semana passada, no The Economist, que um dos agravantes para o Rio é o relativo igualitarismo da economia do tráfico. A revista não dá ênfase à derrubada do helicóptero, falam é da economia do tráfico. Que os drug lords do Rio não têm aquela vida de carrões, dinheiro, mulheres… diferentemente do resto da sociedade, onde as diferenças são abissais. A gente devia atentar pra isso.


Algum dia pensou em se mudar?

Não, nunca.


A violência o assusta?

Sempre assusta, até em filmes. Mas não vivo com medo.


As pessoas perderam a capacidade de se indignar?

Não acredito muito nisso. Hoje as pessoas aceitam a violência, o Congresso com essa corrupção toda… O povo não é tolo assim. Hoje há mais exposição dessas coisas. Então não é que as coisas mudaram, é que elas vieram à tona. Suponho que o povo percebe. Passei um ano no Rio e vi como eram as coisas, não se pode dizer que era melhor. E não se falava muito do assunto. Ele apenas veio à tona. Mas olha, vir à tona é uma melhoria.


Como você se relaciona com a tecnologia?

Sou um pouco parcimonioso. Por exemplo, não tenho celular. Nunca tive. Vivo como se estivesse em 1957. Sei que o celular veio bem depois, mas eu ajo com relação a isso como se fosse 1957. Escolhi esse ano porque é um ano que eu gosto.


E o Twitter?

Twitter não. Eu gosto muito de e-mail.


BAIANICES – por zédejesusbarrêto

06/11/2009 por jarycardoso

Parolas


Nunca jamais na história deste país…

Houve um presidente, rei, imperador,

príncipe, caudilho ou ditador

que falasse tanto quanto Lula.

Dia sim, outro também…

Há um lero novo do presidente, ecoando.

Melhor!

Viemos das trevas do ‘nada a declarar’.

Agora, a república do falatório.

Palavra é voto

pt


zédejesusbarrêto

(out/09)


-o-


Zoeira


O noticiário

impresso, falado, filmado, blogado –

exibe uma realidade.

A publicidade

oficial e privada –

vende outra verdade.

Fatos ou fantasia?

Eles derrubam

Ela voeja

Tiros matam

A droga alicia.


zédejesusbarrêto

(out/2009).

O LEGADO DE NEGUINHO DO SAMBA

06/11/2009 por jarycardoso

Neguinho do Samba - DIDA-Aluno

A ESCOLA OLODUM PROTESTA


por CRISTINA CALACIO


Naqueles tempos em que o Pelourinho era degredado” (naqueles tempos?), “lembro-me de um jovem determinado em fazer a diferença em um mundo imerso em ninharias”. Lá ia mais um neguinho. “Caminhando lentamente, com seu repique, sua baqueta e um gravador pelas ruas de pedra do Pelourinho” (quantas pedras no meio do caminho!).

Penso que as notas musicais do samba-reggae flutuavam, dançavam, brincavam com o Mestre dos ritmos, que em sua elegância ia regendo, transformando notas dispersas em poesia, desenhando convenções percussivas únicas no mundo.

A Escola Olodum protesta pela perda prematura da pessoa e do músico Neguinho do Samba.

Obrigado! Pela sua determinação, sua genialidade e pelo legado deixado ao Olodum.

Fico a pensar que na década de 80 nossa sociedade preconceituosa não poderia imaginar que um neguinho do Maciel Pelourinho poderia emergir para os quatro cantos do mundo no seu estado mais puro de arte e cultura.

O toque do repique convocou os surdos e juntos revelaram talentos, chamaram a atenção de artistas nacionais e internacionais para os ritmos baianos. Divulgou centenas de trabalhos musicais de autores populares, divulgou e popularizou a cultura baiana e de vários países africanos, até então desconhecidos nas salas de aula.

Sim, foi através de sua genialidade que o ritmo do samba reggae possibilitou ao Olodum promover o nome da cidade do Salvador e da Bahia em vários países mundo.

Quem era esse neguinho? Um menino de personalidade forte e polêmica que acreditou em seu talento individual, que evitou as ladeiras e becos tortuosos onde ainda hoje muitos dos nossos meninos pretos se escondem.

Foi Neguinho do Samba uma das estrelas Sírius que irradiaram seu brilho na vida de centenas de pessoas? Talvez fosse ele o povo das estrelas?

No dia da sua partida teve de tudo. Sentimentos sinceros e muitos os discursos vazios, lágrimas de demagogia e muita hipocrisia. Aqueles que sempre dificultam, atrasam, atropelam e renegam a cultura do povo estavam lá com suas promessas vazias e caras de tristeza para melhor aparecerem nas fotos.

Muitos foram os carnavais, ensaios, projetos, ações sociais. Muitas foram as dificuldades, os “não”, os pedidos negados, as portas fechadas e agendas dos responsáveis pela cultura desta “Roma Negra” indisponível.

Ninguém ligou de Brasília para ajudar. Ninguém de Salvador ligou para dizer que uma empresa privada poderia patrocinar. Não. Nesses momentos todos se escondem. Os telefones ficam mudos, o celular não atende ou não existem.

O artigo vinculado em um impresso de Salvador interrogava “O que será feito de sua criação?” “Será que o samba reggae será relegado ao esquecimento?” Também afirmou: “Com o tempo, porém, o samba-reggae foi sendo esquecido na axé music”, “exploraram o poder de sedução que os tambores podem ter”.

Neguinho do Samba deixou verdadeiros discípulos, muitos seriam os nomes para citar e o Olodum enquanto organização jamais deixará o samba-reggae cair no esquecimento.

No dia 22 de setembro foi encaminhado requerimento ao Ministério da Cultura, por meio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que instaure processo de registro e reconhecimento do SAMBA-REGGAE como bem imaterial e integrante do Patrimônio Cultural brasileiro. Assim o gênero musical, o toque dos tambores que tanto agrega expressões de vida e tradições do afro-baiano continuarão transmitindo de geração em geração sua arte e musicalidade, gerando assim um sentimento de identidade e continuidade, contribuindo para promover o respeito à diversidade cultural e à criatividade humana.

Os homens pretos da cultura soteropolitana, os “dinossauros” que já partiram e os que ainda por aqui circulam vivem por seus ideais, e com certeza lutarão para que “a batida do samba-reggae não fique no limbo”.

Morrem pobres todos eles”. Por que aqueles que exploraram e fizeram “sucesso a partir do que eles criaram?” não vão buscar atendimento médico na madrugada em posto de saúde do Pernambués, ou aguardar pacientemente o Samu (graças a Deus que existe).

Quando para essa turma a derradeira hora chegar, não serão necessárias GRANDES “articulações para os procedimentos do enterro e velório”. Seus familiares não estarão expostos à desconfortável negociação de quem pagará as despesas funerárias. Isso é coisa para os negros homens da cultura. O Olodum protesta!


Cristina Calacio

Coordenadora da Escola Olodum



ANCESTRALIDADE AFRO-BRASILEIRA

05/11/2009 por jarycardoso

por VILSON CAETANO DE SOUSA JUNIOR*

Muito temos falado sobre a noção de ancestralidade e a sua importância para as religiões de matriz africana reorganizadas no Brasil a partir das diferentes visões de mundo trazidas por reis, rainhas, sacerdotes, sacerdotisas, artistas, africanos e africanos chegados nas Américas, particularmente, ao Brasil.

Mais uma vez vamos evocar uma história.

Conta-se que em certa ocasião o povo igbo, grupo étnico que atualmente ocupa o sudeste da Nigéria, se viu encurralado por seus vizinhos. Obrigados a fugir de suas terras, chegaram a uma espécie de bosque nunca antes ocupada. Seus inimigos, todavia, marchavam em sua direção.

Durante vários meses, os igbos se viram acuados e sitiados pelos seus inimigos. As várias famílias que ali estavam assistiam a acabar, sobretudo, a comida.

O grupo, todavia, não desistiu, ao contrário, assim que encontrou uma raiz com a qual perceberam que os homens, logo que a comiam, aumentavam a sua força e as mulheres, o seu poder de gerar filhos e filhas, sadias e fortes.

Com o passar do tempo, as famílias alimentadas pelo inhame, ora comido cru, depois cozido, em forma de farinha, massa, papas ou mingaus, foram crescendo e tornaram-se capazes de construir um grande reino capaz de enfrentar qualquer estrangeiro.

FESTA DOS INHAMES

Todos os anos, ainda hoje, a origem desse grupo é relembrada com “a festa dos inhames”. Ela rememora a resistência e a continuidade dos povos igbos graças a esta raiz.

Este é, pois, o sentido da ancestralidade e talvez nenhuma história seja tão ilustrativa quanto esta. Antes mesmo de um conceito, a ancestralidade é a origem de um povo, desta maneira, assemelha-se ao conceito grego de arké.

Ela remete ao início de um determinado grupo, não a qualquer início, mas aos primórdios, momento fundante, tempo mítico imemorial, perdido no tempo cronológico, revivido no rito que cria todos os tempos, nos conduzindo a fazer uma experiência de um momento tal humano que só poderia ser divino.

Desta maneira, gosto muito da ideia de que os ancestrais são princípios universais. Podem ser comparados aos chamados “elementos civilizatórios”, patrimônios universais expressos de múltiplas formas através das culturas. Assim devem ser entendidos os orixás, os ninkices e os vodus.

A PALAVRA NINKICE

Algumas destas ideias estão resumidas na palavra ninkice, literalmente, remédio, mas não o remédio que cuida apenas de uma parte do corpo, mas do corpo todo, entendido como uma centelha de luz retirada do Universo.

Assim, os ancestrais não podem ser entendidos como “espíritos”, muito menos seres humanos transformados em deuses, confusão que acredito ter sido iniciada pelos missionários que tiveram contato com algumas partes do continente africano a partir do século XV, depois seguida por alguns antropólogos.

Acho que esta confusão pode ser esclarecida, chamando a atenção para o fato de, nas chamadas religiões tradicionais africanas, o movimento ser humano-divindade, acontece ao contrário. Em outras palavras. Não é o ser humano que procura chegar até o Sagrado através de uma série de exercícios bem conhecidos por alguns de nós, haja vista a convivência com o Cristianismo e outras religiões como o Islamismo, mas é o Sagrado que vem até nós. Essa noção vai reaparecer nas religiões afro-brasileiras.

No mundo da vida participamos igualmente como tudo que tem vida. Nos últimos tempos alguns biólogos juntamente com a física quântica têm chamado a atenção para isso.

ATENÇÃO AOS MITOS

Para nós, descendentes de africanos e africanas, basta prestarmos mais a atenção aos mitos. Assim, dizemos que os orixás, vodus e ninkices se manifestam na Natureza, por exemplo.

Quando falamos Natureza, não estamos nos referindo apenas a tudo que é verde como se costuma associar, mas a tudo que tem vida e a tudo que está para viver por que a vida nunca acaba. Foi essa filosofia que preconceituosamente foi chamada de animista ou primitiva.

Nas comunidades-terreiros, os ancestrais se vestem de natureza, ora são a terra, o sol, a lua, as estrelas, as árvores, o mar, os rios, os raios, a tempestade, assim por diante.

INICIAÇÃO

A ancestralidade, todavia, não pode ser resumida a esta. Ela se expressa também nas pessoas, na comunidade, visivelmente em seus corpos. Isso acontece em vários momentos, mas nenhum é mais especial do que o da iniciação.

No processo de iniciação cada comunidade-terreiro de acordo com a sua tradição reconstrói o divino negado quando homens e mulheres negras foram transformados em “coisas”, “peças” pela escravidão, ou ainda hoje quando estes recebem uma série de qualidades negativas baseadas em suas características físicas.

Na iniciação recebemos marcas rituais que nos permitem não somente recuperarmos o nosso corpo, mas também ganharmos consciência de que somos na verdade uma manifestação do divino.

CAIR NO SANTO

Assim, os orixás, ou qualquer outro ancestral “não sobe”, “nem baixa” em ninguém, pois somos parte desses princípios criativos. Talvez a melhor expressão, hoje pouco ouvida, seja mesma a “cair no santo”. No sentido de deixar-se levar pelo Sagrado.

Pena que a expressão “está manifestada” ganhou um sentido tão pejorativo. Estar no santo, aqui no sentido, não de santo católico, mas de Sagrado, permite a cada membro da comunidade fazer a sua experiência juntamente comigo que estou pleno do Sagrado.

Cair no santo” é uma verdadeira hierofania, manifestação do Divino. Esse pensamento conduz em alguns momentos a considerar algumas pessoas como manifestação viva de um ou outro ancestral.

ORIXÁ VIVO

Várias vezes se podem ouvir nos terreiros, “você é um orixá vivo.” De fato, este é o desafio que recebemos na iniciação, tornarmos vodunsi, ou ainda muzenza, ou yawô, esposa.

Na iniciação tomamos consciência de nossa ancestralidade, do Sagrado que esta em nós, nos apropriando de nossa humanidade.

Além da natureza, das pessoas, a ancestralidade se manifesta nas mulheres, capítulo que deve ser escrito a parte dada a sua importância para entender a continuidade da ancestralidade através dos antepassados.

Estes são nossos pais e nossas mães biológicas que representam famílias extensas referenciadas através da expressão Baba mi, meu Pai, ou Ya mi, minha Mãe.

As mulheres são responsáveis pelo Baba tundê, expressão que significa o retorno dos pais através dos filhos, o que somente é possível graças ao poder dividido por todas as mulheres com as Grandes Mães, representada pela terra.

A mulher foi o único ser humano que, segundo um mito yorubá, acompanhou os ancestrais no momento de compor o Universo.

PALAVRA DITA NA HORA CERTA

A ancestralidade se expressa ainda de forma muito particular nas múltiplas linguagens que desde cedo africanos e africanas, juntamente com seus descendentes reelaboraram no Brasil.

Estas dizem respeito a palavras ditas na hora certa, pronunciadas corretamente, ou simplesmente balbuciadas no ouvido de uma pessoa. Ela inclui não apenas o dito, mas também o não dito e o segredo, além daquela escrita diferente da convencional que estamos acostumados a ver.

ANCIÃOS E ANCIÃS: UM PATRIMÔNIO

A ancestralidade se expressa nos velhos e velhas, chamados de tio ou tia. Os anciãos e anciãs constituem o maior patrimônio numa comunidade terreiro. Cabe a eles manter, zelar, proteger ou mesmo atualizar a chamada tradição.

Por fim, a ancestralidade se manifesta na morte, entendida não como aniquilamento, mas como continuidade no mundo dos antepassados que sempre estarão presentes através da noção de família, reinventados pelas comunidades terreiros.

Assim quis Olodumaré, quando diante da imensidão de águas foi arrancando partes de seu corpo que, caindo sobre estas, foram formando os caminhos, o princÍpio da comunicação, a tecnologia, a força que faz brotar os grãos, os remédios, a fertilidade, a fecundidade, a justiça, a guerra, entre outros princípios.

MISTÉRIO

Desta maneira, os orixás, vodus e nikices não têm sexo. Somos nós que falamos destas experiências a partir de nossas realidades. A isso chamamos de projeção religiosa. Todas as religiões fazem isso. Sabemos, no entanto, que o Sagrado extrapola a tudo que possamos falar dele. Talvez seja melhor nos contentarmos com o fato de que é por isso que ele é Mistério e somente assim nos atiraremos nele.

*Vilson Caetano de Sousa Junior – Doutor em Antropologia, professor da Escola de Nutrição da UFBa, filho do Terreiro Pilão de Prata

NO PELÔ SAUDANDO NEGUINHO DO SAMBA

04/11/2009 por jarycardoso
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Entrada da sede da Didá, onde o corpo de Neguinho do Samba estava sendo velado. O cartaz do centro anuncia curso de samba reggae que era ministrado por ele. Foto: VILMA NASCIMENTO 3.11.2009

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Quem aparece no centro desta foto, de boné preto, é Mestre Jackson, principal discípulo de Neguinho do Samba e que no cortejo de despedida comandou os tambores desde o Largo do Pelourinho até a Praça Municipal. Embora de pouco falar, no final da caminhada Mestre Jackson tomou o microfone do carro de som estacionado ao lado do carro do corpo de bombeiros onde estava o corpo de Neguinho do Samba e deu seu testemunho sobre a história do samba-reggae. Ele começou lembrando que, embora os mais novos não saibam, havia muitas escolas de samba em Salvador que abaianaram o samba carioca, tornando-o mais cadenciado. Mestre Jackson disse que, antes de existir o Olodum, Neguinho do Samba era percussionista do Ilê Aiyê. João Jorge, fundador e presidente do Olodum, na época também era do Ilê. Depois que ambos saíram do Ilê, Neguinho do Samba criou uma banda de percussão que batizou com o nome do ritmo que ele havia inventado: Samba Reggae. Depois de algum tempo, continuou Mestre Jackson, João Jorge chamou Neguinho do Samba para o Olodum e foi assim que o samba reggae ganhou o mundo. Foto: VILMA NASCIMENTO 3.11.2009

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Toques de clarim são emitidos da sacada da Escola Didá para anunciar o início do cortejo fúnebre. Foto: VILMA NASCIMENTO 3.11.2009

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A segunda da esquerda para a direita é a Negra Jhô, famosa cabeleireira do Pelô, criativa arranjadora de cabelo afro. Foto: VILMA NASCIMENTO 3.11.2009

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Foto: VILMA NASCIMENTO 3.11.2009

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Em frente à sede do Afoxé Filhos de Gandhy, percussionistas fazem aquecimento à espera do cortejo que vinha descendo a rua em direção ao Largo do Pelô. Foto: VILMA NASCIMENTO 3.11.2009

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Integrantes do Cortejo Afro, bloco carnavalesco do Pelourinho, fizeram bonito durante a manifestação em homenagem a Neguinho do Samba. Eles marcaram presença também na noite de sábado, quando subiram ao palco do show de Arnaldo Antunes e prestaram um belo tributo a Neguinho do Samba, poucas horas depois de seu falecimento. Foto: VILMA NASCIMENTO 3.11.2009

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Na sacada do bar, de óculos escuros e camisa azul, o grande cantor Lazinho, um dos principais vocalistas dos primeiros tempos do Olodum, aguarda a passagem do cortejo. Foto: VILMA NASCIMENTO 3.11.2009

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Um dos filhos de Neguinho do Samba dá entrevista para a TVE. No final do cortejo, na Praça Municipal, ele falou para a multidão pelo microfone de um carro de som e contou como a geração de percussionistas da qual seu pai fazia parte foi inventando batidas e toques nos tambores até que Neguinho do Samba teve o grande saque ao inventar o samba-reggae. Foto: VILMA NASCIMENTO 3.11.2009

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Braço levantado, Tonho Matéria e seu vozerão puxam o canto da massa. "O negro segura a cabeça e chora..." – foi uma das muitas canções lembradas por Tonho Matéria, um dos primeiros cantores de sucesso do Olodum, que neste dia saiu comandando o vocal um pouco à frente da percussão regida por Mestre Jackson. Foto: VILMA NASCIMENTO 3.11.2009

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Foto: VILMA NASCIMENTO 3.11.2009

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O editor deste blog, Jary Cardoso, olha para a câmara enquanto acompanha o cortejo. Foto: VILMA NASCIMENTO 3.11.2009

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Banda Didá. Foto: VILMA NASCIMENTO 3.11.2009

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No final do cortejo, uma cantora da Banda Didá falou à multidão exaltando o que para ela foi o maior feito de Neguinho do Samba: o seu trabalho social e educacional que deu vez às mulheres, abriu portas para elas poderem estar à frente do espetáculo tocando instrumentos e cantando. Foto: VILMA NASCIMENTO 3.11.2009

NEGUINHO DO SAMBA NÃO MORRE

03/11/2009 por jarycardoso

por MAÍSA PARANHOS

Confesso que, na condição de carioca, nascida e criada no Rio, não sou encantada pela Bahia. Minha impressão desta ‘Terra de Todos os Santos”, vem de minha vivência, não do encantamento, que poderia, a qualquer hora, receber o beijo despertador, que nos faz mais próximos do que seria o Real.

Quero dizer com isso que Neguinho do Samba não é encantamento, sujeito ao desencanto. Ao contrário, este Artista baiano veio para ficar. É materializado no som, no ritmo, em nossos corpos que a cada batida de percussão nos leva ao movimento que nos irmana a todas as pessoas e, sem exagero, ao Universo. Dançamos e somos abençoados em fazê-lo. Nossos corpos ganham dimensões desconhecidas quando ouvimos a batida do Olodum, e isso é real.

Determinados gênios possuem naturalmente este poder. Assim é, foi e será Neguinho do Samba, do Pelô, da Didá, das crianças, do som maior.

Gente assim engrandece não só a Bahia e o Brasil, mas a Humanidade.

Grata, é assim que me sinto.

NEGUINHO, SAMBA E DONOS DO “REGGAE”

03/11/2009 por jarycardoso
Neguinho de branco-Haroldo

NEGUINHO DO SAMBA – Foto: HAROLDO ABRANTES | Agência A Tarde

por JORGE PORTUGAL


Quando a célula rítmica do samba-reggae invadiu o coração de Paul Simon, a pélvis pop de Michael Jackson também foi tomada por um frisson alucinante.

Muito antes, bem antes de tudo isso, os negros de Salvador já viviam a utopia, através do som, de juntar Jamaica e Bahia em um sonho só.

Caetano Veloso costuma dizer que o Brasil ainda não merece a Bossa Nova. Seria o caso de se perguntar: e a Bahia merece o samba-reggae?

Sim, porque a sublime invenção do Mestre Neguinho do Samba permanece como o que há de mais avançado, musicalmente sofisticado e inspirador de tudo que se fez em nossa música depois da Bossa e da Tropicália.

Ouvir e ver o Olodum arrastando multidões pelo mundo é confirmar esse destino nosso de conjugar inteligência e alegria para produzir felicidade. Isso é coisa da Bahia. Coisa de negro, gostem ou não.

Aí, Zulu Araújo me liga de Brasília (e eu em Sergipe) e me comunica, num tom triste de voz, que Neguinho do Samba havia morrido e que precisávamos nos articular para o velório e enterro, vez que sua família não estava exatamente nadando em facilidades financeiras.

O filme voltou de vez. O primeiro engenho, a primeira catedral católica, as suntuosas casas de fazenda, os palacetes erguidos nas primeiras cidades, os filhos dos barões estudando em Coimbra ou Paris. E os negros cortando cana, quebrando pedra e cantando chula.

O samba-reggae, a batida do Ilê, do Malê e do Muzenza, a chula de João do Boi e Alumínio de São Brás serão sempre matrizes fundamentais da nossa criação. Os seus criadores são anjos negros que fazem tudo isso para celebrar o prazer e a vida. Dificilmente pensam em dinheiro. Aliás, não sabem sequer o que realmente significa dinheiro. Mas os “donos da festa” sabem, e sabem muito bem.

Por isso, Neguinho do Samba, Mestres Bimba e Pastinha, Besouro, Nelson Maleiro e Batatinha serão eternamente reverenciados e adorados pelo povo, de onde vinha sua inspiração e para onde voltava sua produção de alegria.

Morreram pobres todos eles. Pobres? E o que dizer dos que só podem fazer sucesso a partir do que eles criaram?

Neguinho: você é e será sempre fonte. Gênio da raça, meu rei.

Jorge Portugal – Educador e compositor

secretaria@jorgeportugal.com.br