ESBULHO DO CARNAVAL DE SALVADOR

09/02/2010 por jarycardoso

Ilustração de GENTIL

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texto de NILTON NASCIMENTO

O patético apelo de Orlando Tapajós ao governador Jaques Wagner solicitando financiamento público para o seu trio desfilar no Carnaval que homenageia os 60 anos do trio elétrico e a “esmola” recebida – pouco mais de 10% do solicitado – da Secretaria da Cultura, são emblemas da forma grotesca como os festejos de Momo vêm se realizando na Bahia nos últimos 25 anos, onde um elitista sistema de patrocínios públicos limou a participação popular (78% dos baianos ficaram fora da festa em 2009), tranformando o Carnaval baiano em festa oficial, dirigida aos turistas.

A Antiguidade clássica – Roma, e antes o Egito e a Grécia – exportaram o Carnaval para o mundo sob a forma de festivais livres em homenagem aos deuses lares-pagãos. Na Idade Média, em 1582, durante o Concilio de Trento, o papa Gregório XIII cria o Calendário Gregoriano, oficializando o Carnaval. Decide que a Igreja faria vistas grossas à festa, uma espécie de compensação ao jejum e às abstinências da Quaresma.

Como na Antiguidade, e como ainda hoje, os medievos aproveitavam a licença carnavalesca para se esbaldar em comidas, bebidas e nos prazeres do amor ilícito, elementos que, de acordo com o jornalista Aguinaldo Santana, compõem a incontornável trilogia “estômago-libido-prazer”, do dicionário básico da luxúria e do hedonismo em todas as épocas da humanidade.

Assim, o Carnaval passou a representar a libertação temporária da verdade dominante, um momento de abolição provisória de todas as relações hierárquicas, privilégios, regras e tabus, de predomínio das ambivalências linguísticas onde as pessoas tinham liberdade não só para fazer, mas também para dizer o que queriam.

Com essas características o Carnaval chegou ao Brasil no final do século XIX. A folia contagiava igualmente a senzala e a casa grande, contando com a participação dos governantes. No Dicionário do Folclore Brasileiro, Câmara Cascudo cita um episódio em que o imperador dom Pedro II, brincando um Carnaval muito animado, estatelou-se dentro de um tanque de água.

A Bahia e suas elites romperam esse contrato milenar do carnaval: destruíram o sentido universal da festa para implantar um festival provinciano batizado mentirosamente de “a maior festa do planeta”. Desconstruíram o Carnaval e criaram uma festa chapa branca em que a manifestação do livre espírito deu lugar à regulamentação e o espaço público tornou-se negócio privado, submetido às regras do consumo mercadológico, sendo o resultado financeiro da folia, os lucros, onde se inclui as verbas do patrocínio oficial, rateado entre um grupo exclusivo de músicos e empresários.

Por isso o Trio Tapajós não encontrou recursos do mecenato oficial para tocar na sua própria festa de aniversário.

Até porque essas elites já possuem os seus porta-vozes oficiais na pessoa das Ivete Sangalo, dos Chiclete com Banana, das Daniela Mercury, das Claudia Leitte, dos Carlinhos Brown, dos Xanddy, dos Parangolé, dos Psirico, dos Fantasmão, que enchem as ruas da cidade com carros de som gigantescos vendendo mediocridade musical sob o nome de “alegria”, como antigamente se vendia pirita por ouro, aos tolos.

Nesse negócio não existe espaço não apenas para o Tapajós, como também para o multiculturalismo das tradições musicais brasileiras como o samba, a marcha, o samba-reggae, o frevo, etc. Para as elites bastam as harmonias pasteurizadas e monocórdias da “axé music” e do “pagode baiano”.

Também jogaram para a última cena os grupos negros de afoxés que são manifestações artísticas ligadas diretamente aos cultos afro-brasileiros, eliminou-se as escolas de samba, os blocos de indios, as baianas, e até as belas personagens da commedia dell’arte, como os pierrôs, colombinas, polichinelos e palhaços, reminiscências dos eternos carnavais.

Trocando o “bem comum” pelo “interesse privado”, alegoricamente denominado de “indústrias criativas”, as elites baianas realizaram o esbulho do Carnaval, concretizando a “magna latrocinia” – como diria Santo Agostinho – do espaço público na cidade.

Com isso, o Carnaval baiano ganhou um conteúdo de puro negócio, perdendo a poesia característica do seu passado, quando o povo cantou a primeira música carnavalesca do País: E viva Zé Pereira!

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Nilton Nascimento – Jornalista e pesquisador

 

SALVADOR, CAPITAL MUNDIAL

09/02/2010 por jarycardoso

Ilustração de GENTIL

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texto de PAULO ORMINDO DE AZEVEDO*

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Com este título pomposo e clima de Milagre do Sal, os governos municipal [de Salvador] e estadual [da Bahia] apresentaram ao público, no último dia 28 de janeiro, um cesto de 22 projetos urbanos, a maioria já em andamento ou conhecidos e outros novos elaborados como os demais em surdina, por empresas e ONGs privadas. A apresentação chic era claramente dirigida à dobradinha empresários/políticos. O Zé Povinho ficou de fora, guardando os carros.

Uma cidade mundial pressupõe um grande centro financeiro, de inovação tecnológica, de cultura, design e moda. Talvez só São Paulo e Buenos Aires possam pretender este título na América do Sul.

Na saída todos se perguntavam onde terminava a fantasia tropical e começava o mundo real.

Não se trata, evidentemente, de um plano urbanístico, senão de uma cesta de projetos independentes oferecidos pelos empresários, o que reafirma a dependência e a incapacidade da prefeitura e estado de planejar.

Salvador foi apresentada como uma ilha sem ligação com a região metropolitana (RMS). De um modo geral todos os projetos procuram valorizar as áreas de maior potencial imobiliário, a Orla do Atlântico e a bela enseada do Canta Galo. Os projetos viários seguem o paradigma, já superado, da mobilidade sobre pneu, diante do veto da associação dos donos de ônibus ao VLT (veículo leve sobre trilhos).

Não se discute como conciliar o ultrapassado porto urbano com a abertura para a baía, nem o impacto da ponte de Itaparica sobre Salvador, ou a articulação do metrô com o sistema de transporte, o uso do solo, a habitação popular, o turismo e a cultura, molas do desenvolvimento da cidade.

A maioria dos projetos terá forte impacto ambiental e social, especialmente as avenidas Atlântica e Linha Viva e de urbanização do Canta Galo, este estribado em um instrumento, a Concessão Urbanística, que só reconhece o direito à propriedade do grande capital. A expropriação da pequena propriedade sem justa causa para entregar a grupos imobiliários é inconstitucional.

Ressalve-se, contudo, que é primeira vez que os dois governos expõem o que pretendem fazer. Sob pressão da sociedade civil e da mídia esboça-se uma mudança cautelosa de atitude.

O prefeito reconhece que Salvador precisa de um plano urbanístico e que só pode sair do buraco fazendo alianças com o estado e a União. Reconhece ainda que o atual PDDU (Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano) não atende à dinâmica da cidade e que é preciso modificá-lo.

O convite do prefeito à discussão deixa claro que ele sabe que já não se pode governar sem ouvir os setores organizados da sociedade, que têm nos Ministérios Públicos Estadual e Federal fortes aliados.

Coincidentemente, essas são todas teses defendidas por movimentos da sociedade civil como “A Cidade também é nossa”, que inclusive moveu uma Ação Civil Pública contra o famigerado PDDU. Tal movimento vem se ampliando com a adesão de outros movimentos, como “Vozes de Salvador”, associações de bairros e ONGs e apoio do Ministério Publico.

O prefeito e o governador só não admitiram o principal, medidas para desprivatizar o sistema de planejamento, que libertaria o governo da dependência técnico-financeira do setor imobiliário e do monopólio do “consórcio” das grandes empreiteiras. Sem isso, que garantias tem a sociedade da aplicação de recursos públicos com critérios sociais, técnicos e lisos?

Não queremos ver se repetirem os escândalos do metrô, do PDDU e do lixo. Queremos dialogar sim, mas dentro de um sistema de planejamento continuado, técnico, participativo e retroalimentado, e não sobre projetos contaminados pelo vírus cavalo de troia, que mata e apaga a memória do setor público.

É possível criar uma instância de planejamento público não comprometida, como fizeram outros estados e cidades, restaurando o estado, recuperando órgãos como o Derba e a Conder, mobilizando a UFBA, a UNEB e associações profissionais. Não falta know how, nem agências para financiar: BNDES, Finep, CNPq, Fapesb.

Planejar não é uma atividade simplesmente técnica, é essencialmente política, e o estado não pode se omitir ou receber projetos de regalo. O que falta é decisão política, cuja demora compromete governos que se pretendem modernos, democráticos e transparentes.

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*Paulo Ormindo de Azevedo – Arquiteto, diretor do Instituto dos Arquitetos do Brasil – Departamento Bahia (IAB-BA) e professor titular da Universidade Federal da Bahia (UFBA)

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O artigo abaixo também discute o programa de obras lançado pela Prefeitura de Salvador:

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PROGRAMA DA PREFEITURA

PARA A CIDADE DA BAHIA

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texto de ARMANDO AVENA

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O programa de obras apresentado pelo prefeito João Henrique com o slogan, “Salvador: capital mundial. A cidade do nosso futuro”, é um programa de obras que pode, sim, beneficiar o sistema urbano e viário da cidade. O fato de ter sido “ofertado” por instituições privadas significa, é verdade, que o planejamento urbano foi varrido da administração municipal há mais de 20 anos, mas não invalida o projeto, até porque o problema maior é de outra ordem e se resume na indagação: de onde virão os recursos para implantá-lo?

Mas a verdade é que os projetos apresentados pela prefeitura de há muito já deveriam estar implantados. A construção de vias exclusivas para ônibus e a implantação de vias alternativas à Paralela, por exemplo, são fundamentais para evitar o iminente travamento da cidade. A requalificação urbana, ambiental e paisagística da Cidade Baixa, assim como a requalificação da orla do Jardim de Alah até Itapuã são projetos que deveriam ter sido implantados 30 anos atrás.

Naturalmente esses projetos precisam ser retrabalhados sob a ótica do interesse público e ser discutidos com a população. Há, é verdade, pontos – a Ponte de Pituaçu, assim como a Ponte Salvador-Itaparica, por exemplo – que precisam ser melhor discutidos (aliás, por que diabos as pontes passaram a dominar o inconsciente coletivo dos governos da Bahia?).

Mas, no geral, o projeto foca nos principais problemas viários da cidade. Na verdade, o que falta ao programa de obras da prefeitura é um horizonte temporal mais explícito, uma definição de fontes de recursos e financiamento, e cronogramas que impeçam atrasos e superfaturamentos.

Além disso, sem a participação do governo federal, o programa é de difícil execução. E aqui deveriam entrar as lideranças políticas da Bahia, que vivem em desunião eterna, e poderiam se unir, ao menos uma vez, para, em bloco, apresentar o projeto ao presidente Lula.

Lula é um amigo de Salvador, aqui passa suas férias e nos visita muitas vezes, mas como todo amigo que se sabe muito querido, tende a atender primeiro aos amigos que quer conquistar. Talvez, por isso, tenha colocado, em sua gestão, tão poucos recursos para a velha Cidade da Bahia e bilhões de reais em investimentos para o Rio de Janeiro.

Mas o amigo de sempre também tem direito a um afago e é hora de o governo federal assumir pelo menos parte do programa de obras da prefeitura, criando um PAC [Programa de Aceleração do Crescimento] para Salvador, como propus anteriormente. Afinal, há mais de 30 anos, a cidade não sofre qualquer intervenção de porte no seu sistema urbano.

Mas, além da questão dos recursos, o programa de obras da prefeitura terá ainda de vencer as resistências que aparecem sempre que se quer mexer na degradada Cidade da Bahia.

Aliás, se Paris tivesse urbanistas e arquitetos tão avessos ao moderno quanto Salvador, o Museu do Louvre não teria uma pirâmide de vidro, o bairro de La Defénse não seria construído e a roda gigante aos pés do Rio Tamisa não estaria embelezando Londres.

Por aqui, há quem considere o Clube Português, a sede do Bahia e os horríveis barracões que os ingleses plantaram no Porto de Salvador como patrimônio histórico.

Aliás, os arquitetos e urbanistas baianos deveriam ler com urgência o romance A Nascente da ultraliberal Ayn Rand (um romance sobre os arquitetos e sobre a arquitetura) para perceber que o ódio ao novo pode estar tanto no mais celerado empreiteiro, como no mais empedernido marxista.

Naturalmente, o projeto precisa ser discutido pela população e por nossos urbanistas, que se ombreiam aos melhores do mundo, mas não cabe uma discussão interminável que nunca se concretiza. Claro que poderia haver dezenas de alternativas melhores ao projeto, mas, nunca é demais lembrar, que o ótimo é inimigo do bom e sempre se torna uma justificativa para não se fazer nada.

O fato é que Salvador é a única das grandes capitais brasileiras que continua com o mesmo traçado urbano de 20 anos atrás. Por isso, em vez de os técnicos se perderem em discussões inúteis e de os políticos estarem preocupados apenas com os benefícios eleitorais deste ou daquele candidato, é hora da Bahia se unir e exigir que o governo federal coloque recursos para preparar Salvador, não para Copa de 2014, mas para o futuro.

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Armando Avena – Escritor, economista e diretor do portal Bahia Econômica

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ILDÁSIO TAVARES – GENTE DA BAHIA

07/02/2010 por jarycardoso

ILDÁSIO TAVARES em seu reduto de produção e criação durante entrevista para a série MEMÓRIA DA BAHIA, do jornal A Tarde. Foto de MARCO AURÉLIO MARTINS | Agência A Tarde - 16.6.2009

AS SETENTA VIDAS DE UM OBÁ-POETA

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texto de JORGE PORTUGAL*

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Quando ele nasceu, um anjo torto, barroco e baiano, olhou-o com um sorriso fescenino e decretou em sentença: “vai, poeta, ser Ildásio na vida!”

Daí em diante, ele só se multiplicou por inúmeras faces e, sozinho, poderia muito bem ter povoado todos os espaços e recantos da literatura.

Existe o Ildásio poeta, o Ildásio professor, o Ildásio erudito, capaz de discorrer com elegância e conhecimento profundo sobre dez dos dez mais complexos assuntos que pautam nossa cultura; temos também o Ildásio boêmio e amante da sedutora paisagem baiana, sobretudo se encarnada no sexo feminino, independente de etnia ou origem social, mas importando que possua as curvas estonteantes da Avenida Contorno.

Esse é certamente o “Dadá Tavares”, cantado por Antônio Carlos e Jocáfi que “entre noites, mulheres e badalos, dava aula de inglês nos intervalos pra que sua família não lhe deserdasse”.

Esse também pode ser chamado Ildásio Taveira, personagem memorável de Jorge Amado no seminal A Tenda dos Milagres, que nos comunica uma Bahia negra, negro-mestiça, civilizada pela sabedoria africana, na sua capacidade de criar e resistir.

Aí se desvela o Ildásio do Candomblé, o Obá de Xangô e o filho de Omolu/Jacum, o exímio capoeirista Lacrau de outros tempos, e o sábio de hoje que continua lutando para esquivar-se de adversidades, aplicando aús e meias-luas na vida.

E há um impagável Ildásio epigramista, demolidor implacável de hipocrisias e reputações literárias que não resistiriam ao sopro da mais leve brisa. Espécie de Gregório de Mattos redivivo, encarna esse espírito barroco que atravessa a Bahia, como seu arquétipo cultural, e tempera, com veneno e arte, a expressão da inteligência aguda e do riso triunfal.

O espaço deste artigo já está acabando e ainda sobra tanto Ildásio que nem suas setenta vidas seriam capazes de abarcar.

De “restos”, querido poeta, o coração daquele menino de 12 anos, que se fez encantado por sua poesia, ainda guarda o verso-senha da sua inspiradora existência: “há um resto de ontem na calçada/ que foi dia de festa e fantasia/ há um resto de mim em toda parte/ que nunca pude ser inteiramente”.

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*Jorge Portugal – Educador, poeta, compositor, apresentador do programa TÔ SABENDO!, da TV Brasil

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POEMA DE ORDEP SERRA

07/02/2010 por jarycardoso

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jary,

recebi esta pérola de Solange (Sossó) Carybé, a filha de Carybé. O poema é de Ordep Serra.

Vamos pôr no Jeito Baiano, já ?

bj

zedejesusbarreto

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HIPOPÉIA DO JOÃO CARNEIRO

(HENRIQUECÍADA)

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POR CANCÃO DE FOGO

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CANTO I: TROPEL

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Uma voz ergueu-se

Lá na prefeitura

Proclamando um lema

De cavalgadura:

A cavalo dado

Não se olha os dentes”.

Sim… Na história temos

Belo precedente:

Viu-se bem narrado

Num poema joia

Que um cavalo dado

Acabou com Troia.

Pobre Salvador

Tão “presenteada”!

Que lhe restará

Desta cavalgada?

Nosso bom prefeito

Que é sujeito fino

Já tem tradição

De acolher equino:

Se for bicho brabo

Pastará no erário;

Se for besta mansa,

Vira Secretário.

Planos faz João

Sem compasso ou régua,

Pois lhe basta um belo

Filho de uma égua.

Quem a norma segue

Que ele faz impor-se

Beiço de jumento

Chama de arroz-doce.

Uns vinte projetos

Bem ajaezados

Diz o bom alcaide

Que lhe foram “dados”

E o Secretário

Que os apadrinhou

A cavalos rudes

Logo os comparou.

Animais bonitos

(Não se sabe a raça)

Prontos a dar coices

Que serão de graça.

Logo esses cavalos

Vão fazer estouro

Perseguindo as frágeis

Burras do Tesouro.

(A cidade é clara

Tem límpido céu

Mas na prefeitura

Com certeza há breu).

A manada solta

Ri-se com desprezo:

Não lhes olha os dentes

Quem tem rabo preso.

Que lindos bichinhos!

(Quem os acolheu?)

Entram na cidade

No trote de Abreu.

Muito me admira

(Mas não me engazopa)

Que um carneiro seja

Madrinha da tropa

É de graça a coisa!

Que ninguém critique:

Vem da patuleia

Do João Henrique…

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Ordep Serra

http://ordepserra.wordpress.com

http://ordepserra.blogspot.com

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RASGANDO A FANTASIA

07/02/2010 por jarycardoso

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texto de WALTER QUEIROZ JR.*

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Nas portas de mais um carnaval, festa que, pela vida à fora, tenho estimado e celebrado mas que vem negando à minha geração, espaço e reconhecimento, rasgo, simbolicamente, a minha fantasia e sustento a minha indignação.

Não é possível que se continue mantendo toda uma cidade como refém de um modelo festivo que coloca os interesses de um grupo de artistas e empresários acima dos direitos dos cidadãos e da dinâmica normal de suas vidas. Acima do soberano e constitucional direito de ir e vir, nas ruas da folia, sem ser achacado por “cordeiros” guindados sem nenhum preparo e legitimidade à condição de para-policiais.

Centenas de famílias tendo de identificar-se para poder voltar pra suas casas e ficar sem poder dormir direito pela fúria eletrônica dos trios castigando-lhes os ouvidos num flagrante desrespeito à lei do silêncio.

O argumento de que estas arbitrariedades se justificam pelos dividendos turísticos e interesses de uma grande maioria foliã é falacioso e ilegal colocando a festa acima da lei e reforçando o lamentável estereótipo do baiano folgazão e irresponsável hedonista. Autorizando a difusão histriônica em todos os cantos da cidade de uma música de crescente mau gosto e banalidade, guindada ao pseudo-sucesso pela difusão maciça patrocinada pelo “jabá” que impera na maioria das rádios com honrosa exceção da Educadora FM, que dá o nome dos autores e é um exemplo para o país (Viva Perfelino Neto!).

Seria uma questão de bom senso mudar enquanto é tempo o rumos da festa antes que ela se esvazie paulatinamente e o povo, agente maior do evento canse de ser ator de segunda classe num espetáculo da qual ele foi sempre a grande estrela.

Tudo isso sem falar na gravíssima questão de saúde pública ameaçada (Olha a meningite aí, gente) por imensos aglomerados do porte do nosso carnaval.

Enfim, aproveito para lembrar que não é jogando as nossas vergonhas e mazelas para debaixo dos tapetes festivos que seremos a grande Salvador sonhada por todos nós.

Aproveito para convidá-los também para um “happy-hour” jacuíno dia 9, às 19 horas no Sabores da Dadá.

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*Walter Queiroz Jr. – Compositor e um dos fundadores do saudoso Bloco do Jacu, membro da Confraria dos Saberes

MARIA BETHÂNIA: O CANTO DA GRIÔ

03/02/2010 por jarycardoso

Maria Bethânia durante show no Teatro Castro Alves, em Salvador (BA). Foto de CARLOS CASAES | Agência A Tarde - 26.6.2008

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texto de MARLON MARCOS

(extraído do blog MEMÓRIAS DO MARhttp://memoriasdomar.blogspot.com/)

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Amanhã, a Cidade da Bahia celebra os 45 anos de carreira de Maria Bethânia através de reflexões sobre sua obra. Intelectuais e artistas se debruçam, pontualmente, sobre aspectos socioantropológicos nas construções estéticas da cantora que contam, histórica e culturalmente, os caminhos da cultura popular no Brasil nas últimas quatro décadas.

Será feita – nas sessões organizadas entre palestras, conferências, oficinas e saraus que compõem o Congresso Brasileiro sobre o Canto e a Arte de Maria Bethânia – uma sociologia da beleza. A beleza raríssima de Maria Bethânia – posta a nos entregar o melhor que a palavra, o som, a música, enfim, a canção pode oferecer à existência humana nestes arredores brasileiros.

Um trabalho de fãs que indica a qualidade da artista em questão: análises serão feitas para se compreender do ponto de vista acadêmico uma expressão artística que não carece deste tipo de explicação – mas será feita: uma sociologia da beleza singrando fé, festa e emoção!

Além de tudo que será discutido neste congresso para reafirmar nossa inclinação para as criações populares – é nisso que somos bons –, este evento deve enviar um documento sugerindo, à Universidade Federal da Bahia e à Universidade do Estado da Bahia, o nome de Maria Bethânia Vianna Telles Velloso para receber o honroso título de Doutora Honoris Causa pelo conjunto de sua obra que tanto dignifica a Bahia e o Brasil e serve como instrumento de estudo e pesquisa para melhor se entender a história da cultura brasileira. Salve, por 45 anos de carreira, a nossa doutora (e cantora!) Maria Bethânia.

RELEASE DE DIVULGAÇÃO DO ENCONTRO

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Para comemorar os 45 anos de inserção contínua de Maria Bethânia nas artes musicais e cênicas do Brasil, o Fã-Clube Rosa dos Ventos Bahia realizará em 4, 5 e 6 de fevereiro o Congresso Brasileiro sobre o Canto e a Arte de Maria Bethânia: 45 anos de Palco. O evento tem o intuito de desenvolver reflexões sobre a cultura brasileira a partir das muitas leituras estéticas da cantora santo-amarense, que servem como traduções das muitas possibilidades identitárias que temos como nação multicultural.

Nos dias 4 e 5, no Teatro Martim Gonçalves, no Canela, em Salvador, das 9:00 às 18 horas, vários intelectuais e artistas irão discutir a trajetória de Maria Bethânia em sua busca incessante de se expressar traduzindo o universo da cultura popular no Brasil.

Nomes expressivos como o do sociólogo baiano Milton Moura, especialista em música popular brasileira; a professora mineira Lúcia Castello Branco, referência nacional em leituras acadêmicas sobre a nossa literatura e apaixonada pela obra da cantora; a dramaturga Aninha Franco; o poeta José Carlos Capinan, que fará a palestra de abertura; a poeta Mabel Velloso; os compositores Roberto Mendes, Jota Velloso, Jorge Portugal, entre os nomes de mais destaque.

Vários trabalhos acadêmicos que versaram sobre a obra de Maria Bethânia também serão apresentados e discutidos. A intenção do evento é mostrar a viabilidade do trabalho de uma intérprete da canção popular como instrumento de investigação social, possibilitando análises diversas sobre esta complexidade que chamamos de identidade cultural brasileira.

Maria Bethânia fará 45 anos de carreira em 13 de fevereiro de 2010, e sempre imprimiu a sua vontade de traduzir elementos da nossa cultura popular, os aspectos da nossa religiosidade de ascendência africana, a poesia em suas diferentes matizes, a música aliada às artes cênicas e a intertextualidade como configuração e aliança estética.

As atividades do dia 6 (sábado) transcorrerão em Santo Amaro da Purificação. Correspondem à parte lúdica do evento: se farão passeios culturais em locais que marcaram a vida da artista nesta que é a sua cidade natal.

YEMANJÁ – AFINAL QUE O DIA DELA CHEGOU

02/02/2010 por jarycardoso

Foto de LUNAÉ PARRACHO | Agência A Tarde - 2.2.2010

Veja esta galeria de fotos arrasadoras, extraídas do site do jornal    A Tarde (www.atarde.com.br), de autoria do fantástico repórter fotográfico LUNAÉ PARRACHO, da Agência A Tarde. Lunaé saiu em campo às 4 da manhã de hoje para fazer esta reportagem na Praia da Paciência, bairro do Rio Vermelho, em Salvador, no dia consagrado a Yemanjá, Dois de Fevereiro:

A mesma moça da primeira foto no momento anterior ao lançamento da oferenda. Foto de LUNAÉ PARRACHO | Agência A Tarde - 2.2.2010

Ao amanhecer, barco leva passageiro com seus presentes para a Rainha do Mar. Foto de LUNAÉ PARRACHO | Agência A Tarde - 2.2.2010

Outra viagem de barco levando mais presentes oferecidos por madrugadores, os primeiros a salvar Yemanjá. Foto de LUNAÉ PARRACHO | Agência A Tarde - 2.2.2010

Fotos de LUNAÉ PARRACHO | Agência A Tarde - 2.2.2010

Foto de LUNAÉ PARRACHO | Agência A Tarde - 2.2.2010

Foto de LUNAÉ PARRACHO | Agência A Tarde - 2.2.2010

FESTA PARA A RAINHA DO MAR

02/02/2010 por jarycardoso

Ilustração de SIMANCA

texto de CLEIDIANA RAMOS

(extraído do blog Mundo Afro)

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Hoje, todos os caminhos na capital da Bahia levam até Iemanjá, chamada de “a mãe cujos filhos são peixes” e também conhecida como aquela que fez brotar dos seus seios generosos as outras divindades.

Iemanjá costuma sempre ser muito festejada por seus devotos e filhos. É saudada como generosa e protetora, características próprias da maternidade que é uma das suas referências mais conhecidas.

Curioso que é a única das divindades das religiões de matrizes africanas que ganhou uma festa própria sem nenhum tipo de associação com santos católicos.

A festa nasceu de uma devoção dos pescadores da colônia de pesca Z-1, localizada no Rio Vermelho e resiste ano após anos. Se o primeiro presente foi levado numa caixa de sapato, o de agora segue em um barco, acompanhado por uma procissão de outras embarcações.

O agradecimento e pedidos de um grupo de pescadores, portanto, acabou se transformando em apelos coletivos. E Iemanjá parece ouvir e atender, afinal, ano após anos, são mais e mais balaios para receber os presentes dos outros devotos que enfrentam filas quilômetricas para colocar seu agrado desde as primeiras horas da manhã.

E a festa não começa ali. No ínício da madrugada, a zelosa Mãe Aíce, que orienta todo o ritual religioso, vai até o Dique do Tororó levar a oferta de Oxum, senhora das águas doces, que não pode e realmente não fica esquecida.

O ritual às margens do Dique é tranquilo, emocionante e completamente silencioso. O por quê? Como várias coisas em candomblé, a resposta é para quem está autorizado e precisa escutá-la. Aos demais fica a lição que se observa e entende aquilo que está ao seu alcance.

Após o agrado a Oxum é hora de levar a oferenda principal para o Rio Vermelho, que fica guardada na chamada Casa do Peso até o meio da tarde quando parte até o local onde  deve ser depositado como agradecimento e prece para que o ano seja farto. E os pescadores, ano após ano, mostram que estão satisfeitos com a sua rainha e a proteção que ela oferece a quem vive parte significativa da vida em seus domínios.

Missão religiosa cumprida, é hora de aproveitar as várias festividades no entorno da praia que não tem o nome específico, mas é conhecida como “aquela do presente de Iemanjá”. As feijoadas são as concentrações mais procuradas. Tem desde as oferecidas na simplicidade das barraquinhas até as servidas nos hotéis luxuosos do Rio Vermelho, sem falar nas chamadas “festas de camisa”, aquelas em que precisa adquirir este tipo de vestimenta para participar.

Com sua leveza e zelando pelo equilíbrio, afinal é a protetora da cabeça, Iemanjá do povo ketu, Mamento Dadá, Dandalunda ou Kayala, divindades com características semelhantes nas nações da família bantu, ganhou na Bahia o domínio das águas salgadas.

Portanto, como majestade que é, recebe honrarias especiais dos seus súditos e filhos. Axé!

PRA SALVAR YEMANJÁ – BAIANICES

01/02/2010 por jarycardoso

Casa de Yemanjá, no Rio Vermelho, Salvador (BA). Foto de IRACEMA CHEQUER | Agência A Tarde - 1.2.2010. Seleção de fotos deste post por CRISTIANO PARAGUASSU

É dois de fevereiro

Dia de festa no mar

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texto de zedejesusbarreto

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Escreveu, musicou e cantou o mestre Dorival Caymmi, amado e amante dos mistérios femininos do mar da Bahia (os franceses chamam de La Mer, já que o mar é fêmea):
(Vídeo do YouTube produzido especialmente para o blog SALVADOR NA SOLA DO PÉhttp://salvadornasoladope.blogspot.com/)

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Dia Dois

de Fevereiro

Dia de festa no mar

Eu quero ser o primeiro

pra salvar Yemanjá

Escrevi um bilhete pra ela

pedindo pra ela me ajudá

Ela então me respondeu

Que eu tivesse paciência de esperar

O presente que eu mandei pra ela

De cravos e rosas, vingou.

Chegou! Chegou! Chegou!

Afinal que o dia dela chegou.

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Presentes para Yemanjá depositados no Barracão ao lado da Casa do Peso, no Rio Vermelho. Foto de FERNANDO AMORIM | Agência A Tarde - 2.2.2009

Contam os mais velhos que a festa do dia 2 de fevereiro, nos mares da Bahia, teve origem na segunda década do século passado, após um período de pouco peixe nas águas e nas linhas e redes de pesca dos homens do mar. Daí, pescadores da Colônia do Rio Vermelho, ligados ao culto afrobaiano fizeram promessas à Deusa das Águas, bateram atabaques, dançaram, cantaram e arriaram presentes no mar pedindo proteção e fartura. Dali em diante, a pesca foi farta e a festa virou tradição, com o povo em romaria fazendo seus pedidos, agradecendo e deixando seus presentes nos balaios para que os pescadores levassem ao alto mar, em homenagem a ela, Iemanjá, Janaína, Princesa de Aiocá… A Rainha do Mar de tantos nomes cultuada em várias partes do planeta desde as antiguidades.

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Minha Sereia, Rainha do Mar

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Pierre Fatumbi Verger, em seu livro ‘Orixás’, necessária abordagem sobre a religiosidade afrobaiana, ensina que o nome Yemanjá deriva de Yèyé omo ejá (‘Mãe cujos filhos são peixes’), orixá ou divindade dos Egbá, uma nação de língua iorubá que viveu na região entre Ifé e Ibadan onde fica o rio Yemoja – África sub-saariana, atual Nigéria.

Mas, no início do século XIX, as constantes guerras entre nações iorubás levaram os Egbá a emigrar na direção oeste, para Abeokutá, cidade onde há um templo dedicado a Iemanjá, divindade cultuada no Brasil e em Cuba.

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Seu axé é assentado sobre pedras marinhas e conchas, guardadas numa porcelana azul. O sábado é o dia da semana que lhe é consagrado, juntamente com outras divindades femininas. Seus adeptos usam colares de contas de vidro transparentes e vestem-se, de preferência, de azul claro’.

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Manifestada em suas iaôs, Iemanjá dança imitando as ondas do mar e é saudada aos gritos de ‘Odò Iyá!’. No Brasil é sincretizada com Nossa Senhora da Imaculada Conceição.

Integrantes do afoxé Filhos de Gandhy levam os presentes para os barcos. Foto de FERNANDO AMORIM | Agência A Tarde - 2.2.2009

Festa de Pescador

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Sobre a festa popular do Rio Vermelho, Pierre Verger a fotografou nos anos 1950 e também a descreveu, assim:

A festa do dia 2 de fevereiro é uma das mais populares do ano, atraindo à praia do Rio Vermelho uma multidão imensa de fiéis e de admiradores da Mãe das Águas. Iemanjá é frequentemente representada sob a forma latinizada de uma sereia, com longos cabelos soltos ao vento. Chamam-na, também, Dona Janaína ou, mesmo, Princesa ou Rainha do Mar.

Neste dia, longas filas se formam diante da porta da pequena casa construída sobre um promontório, dominando a praia, no local onde, nos outros dias do ano, os pescadores vêm pesar os peixes apanhados durante o dia. Uma cesta imensa (balaio) foi instalada de manhã, logo cedo, e começa então um longo desfile de pessoas de todas as origens e de todos os meios socais, trazendo ramos de flores frescas ou artificiais, pratos de comida feitas com capricho, frascos de perfumes, sabonetes embrulhados em papel transparente, bonecas, cortes de tecidos e outros presentes agradáveis a uma mulher bonita e vaidosa. Cartas e súplicas não faltam, nem presentes em dinheiro, assim como colares e pulseiras. Tudo é arrumado dentro da cesta, até que, no final da tarde, ela está totalmente cheia com as oferendas, as flores colocadas por cima.

O presente para Iemanjá, transformado numa imensa corbelha florida, é retirado com esforço da pequena casa e levado, em alegre procissão, até a praia, onde é colocado num saveiro. O entusiasmo da multidão chega ao seu máximo; não se escutam senão gritos alegres, saudações a Iemanjá e votos de prosperidade futura. Uma parte da assistência embarca a bordo dos saveiros, barcos e lanchas a motor. A flotilha dirige-se para o alto-mar, onde as cestas são depositadas sobre as ondas.

Segundo a tradição, para que as oferendas sejam aceitas, elas devem mergulhar até o fundo, sinal de aprovação de Iemanjá. Se elas boiarem e forem devolvidas à praia, é sinal de recusa, para grande tristeza e decepção dos admiradores da divindade’

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A tradição popular baiana, com todas as manifestações de fé, continuam preservadas, a despeito dos interesses turísticos e das velozes transformações desses tempos digitais. Muitos terreiros de candomblé fazem alvorada de fogos, cumprem rituais, arriam oferendas para Oxum nas águas doces e, depois, os adeptos vão às praias em romaria para entregar seus presentes e pedidos a entidade que habita as águas do mar.

Na colônia de pescadores do Rio Vermelho os atabaques batem desde o amanhecer. São entoados cantos em iorubá, banto e ijexá, os iniciados dançam e alguns incorporam o Orixá. Nesse dia de verão, Salvador praticamente para. A multidão, cada ano maior, faz festança nas ruas do bairro repletas de barracas, varando a madrugada.

É festa de rua da Bahia.

Foto de FERNANDO AMORIM | Agência A Tarde - 2.2.2009

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Re-ouvindo Caymmi:

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Minha sereia, rainha do Mar

O canto dela faz admirar

Minha sereia é moça bonita

Nas ondas do mar aonde ela habita

(Oh! Tem dó de ver o meu penar)

- Minha Sereia!

- Rainha do Mar …

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Os nomes de Iemanjá

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No extraordinário romance ‘Mar Morto’, Jorge Amado assim escreveu:

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Iemanjá, que é dona do cais, dos saveiros, da vida deles todos, tem cinco nomes.

Cinco nomes doces que todo mundo sabe. Ela se chama Iemanjá, sempre foi chamada assim e esse é seu verdadeiro nome, de dona das águas, de senhora dos oceanos.

No entanto os canoeiros amam chamá-la de Dona Janaína, e os pretos, que são seus filhos mais diletos, que dançam para ela e mais que todos a temem, a chamam de Inaê, com devoção, ou fazem suas súplicas à Princesa de Aiocá, rainha dessas terras misteriosas que se escondem na linha azul que as separa de outras terras.

Porém, as mulheres do cais, que são simples e valentes… as mulheres da vida, as mulheres casadas, as moças que esperam noivos, a tratam de Dona Maria, que Maria é um nome bonito, é mesmo o mais bonito de todos, o mais venerado, e assim dão a Iemanjá como um presente, como se lhe levassem uma caixa de sabonetes à sua pedra no Dique.

Ela é sereia, é a mãe-d’água, a dona do mar, Iemanjá, Dona Janaína, Dona Maria, Inaê, Princesa de Aiocá. Ela domina esses mares, ela adora a lua, que vem ver nas noites sem nuvens, ela ama as músicas dos negros’…

Foto de FERNANDO AMORIM | Agência A Tarde - 2.2.2009

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Caminhos do Mar

(Essa canção que segue foi tema da novela ‘Porto dos Milagres’, da Tv Globo, inspirada em Mar Morto, romance de Jorge Amado; é uma composição de Dorival Caymmi, de seu filho Danilo e de Dudu Falcão):

Rainha do Mar

Yemanjá, Odoiá,

Odoiá, rainha do mar

Iemanjá, Odoiá

Odoiá, rainha do mar

O canto vinha de longe

De lá do meio do mar

Não era canto de gente

Bonito de admirar

O corpo todo estremece

Muda a cor do céu, do luar

Um dia ela ainda aparece

É a rainha do mar

Iemanjá, odoiá, odoiá, rainha do mar

Iemanjá, odioá, odoiá, rainha do mar

Quem ouve desde menino

Aprende a acreditar

Que o vento sopra o destino

Pelos caminhos do mar

O pescador que conhece

As histórias do lugar

Morre de medo e vontade

De encontrar Iemanjá

Foto de FERNANDO AMORIM | Agência A Tarde - 2.2.2009

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zedejesusbarreto, jornalista e escrevinhador (autor dos textos dos livros ‘Carybé & Verger – Gente da Bahia’ e do seguinte ‘Carybé, Verger & Caymmi – Mar da Bahia’, da trilogia ‘Entre Amigos’, criada pela Fundação Pierre Varger e pela Solisluna Design Editora, lançados em 2008 e 2009.)

30jan/2010.

RUMO À PERDIÇÃO DA CIDADE DA BAHIA

31/01/2010 por jarycardoso

Ilustração de BRUNO AZIZ

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texto de LOURENÇO MUELLER*

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Seguramente poucas pessoas leram Peter Hall em suas alentadas 1.169 páginas de Cities in civilization, publicado em 2001 e ainda não traduzido para o português. Neste livro o autor identifica períodos de prosperidade e glória urbana de algumas cidades do mundo ao longo da história de forma destacada e brilhante, como Paris do século 19, Viena da Belle Époque e Berlim da República de Weimar, antes da Guerra. Ele fala de “Idades de Ouro”.

Poderíamos dizer que a nossa Salvador também já teve a sua “idade de ouro” entre as distantes décadas dos séculos 17 e 18, quando esta cidade colonial portuguesa foi entreposto portuário da produção agrícola de açúcar do Recôncavo e do comércio de escravos e a principal cidade do império português de além-mar.

Bem mais recente foi uma onda cultural que pareceu animar a velha capital em meados do século 20, vibrada pela univers(al)idade magnificamente dirigida por Edgar Santos, que para cá trouxe alguns homens que ajudaram a produzir nosso caldo de cultura e arte, “culinária” tão notável quanto a própria cozinha feita com o óleo dourado do fruto de uma palmeira.

Lembro isto para provocar intelectuais, artistas, associações, quadros do governo, políticos… todos transmutáveis em militantes de um projeto comum, uma discussão generalizada sobre Salvador e sua região metropolitana, como já se falou, avaliada ao longo do ano de 2009 por A TARDE [jornal de Salvador, onde, no espaço de Opinião, este artigo foi originalmente publicado, em 24.1.2010].

A provocação procede por diversas razões, que em comum têm a ambivalência da possível salvação/perdição da cidade:

1-A conjuntura política em ano de eleição e a oportunidade para as cobranças do eleitorado.

2-Os recursos federais disponibilizados para a cidade que será uma das sedes da Copa.

3-Uma série de intenções governamentais de intervenção no espaço urbano e regional que ameaça transformar a cidade numa Babel urbanística onde “poucos” $e entendem.

4-E por último uma certa imanência não logística que nos faz supor que as pessoas, mesmo os atores deste processo, não pensam coerentemente na sua gestão.

Mas duais como costumam ser as coisas, essas três emergências de fato junto com a última subjetividade podem servir a Deus e ao diabo, sobretudo a este, que está “na rua, no meio do redemoinho”, premissa básica de Guimarães Rosa no seu rizomático romance, ícone da literatura brasileira, Grande Sertão: Veredas.

Variáveis de uma equação espacial inevitavelmente configuradas no solo regional da Cidade da Bahia, são tantas e tão confusas que prefiro falar metaforicamente, sobretudo porque outros, neste mesmo espaço, têm dado nome aos bois, ou quase…

Ações isoladas, não planejadas, sem percepção do todo, sem coordenação interativa e sem participação efetiva de cidadania pode levar a equívocos muito mais difíceis de corrigir depois de executados do que se tudo tivesse sido discutido antes, como provam as primeiras construções do metrô que deixaram inúteis e indeléveis colunas com nosso dinheiro nelas concretado.

Com bons olhos eu li, dias atrás, a intenção do secretário estadual de Planejamento, Walter Pinheiro, de fazer a Conder [Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia, empresa pública] retornar à sua função original de planejar a região metropolitana de Salvador.

Seria ao menos sensato que grandes projetos estruturantes, de infraestrutura, turísticos ou esportivos, pudessem ser mostrados e discutidos com o principal interessado que é, se ainda não me falha a memória, essa figura coincidente de eleitor, pagante e habitante.

Revelação das vontades políticas, transparência de programas, destinação de verbas, posicionamentos próprios daqueles que pensam a cidade-região e o desejo popular deverão encontrar formas de visibilidade midiática, interatividade face-a-face e interfaces em linguagem apropriada para a compreensão dos habitantes, sob pena de essas mesmas circunstâncias se transformarem no portal dantesco tão manjado, onde estará escrito:

“Deixai fora toda esperança, vós que entrais”.

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*Lourenço Mueller é arquiteto e urbanista

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